sábado, 30 de dezembro de 2017

Parte II - Manchester City e a distribuição frente a blocos baixos

Na sequência do último post que aborda a distribuição do Manchester City nos últimos jogos onde defrontou equipas em bloco baixo e compactas é interessante observar o primeiro golo da equipa frente ao Newcastle e uma das melhores oportunidades na primeira parte.
O City começou o jogo com a distribuição habitual descrita no post anterior, em termos muito gerais um 4x3x3 com os alas bem abertos e interiores entre linhas, com a novidade de Aguero descair tendencialmente para a esquerda criando nessa zona um aglomerado de jogadores que fez a bola andar muito por esse lado. Após a lesão de Kompany nos minutos iniciais, Jesus entrou para o lugar do belga e passam a jogar com dois avançados e uma dinâmica interessante à frente da defesa com Gundogan e De Bruyne.

No post anterior chamei a atenção para o facto de os interiores estarem permanentemente entre linhas, impedindo que fossem estes a dirigir o jogo de frente para a baliza adversária. Na imagem a bola está em Sterling do lado esquerdo, ao guardar a bola, conjuntamente com a acção de Aguero que arrasta Diamé vão permitir que De Bruyne receba em condições de fazer o passe para as costas da defesa do Newcastle e a consequente assistência para o golo de Sterling (primeiro Aguero arrasta linha defensiva e distrai atenções e o inglês tem espaço para executar).



Passado uns minutos a construção do City começa com De Bruyne fora do bloco adversário e a entrar entre linhas arrastando o ala e médio contrários, com a bola a ir para Delph Jesus recua para o espaço deixado livre pelo belga, e leva consigo Diamé, como se vê na imagem. A partir daqui Jesus volta a entrar no bloco do Newcastle arrasta Diamé e De Bruyne recua para receber de Delph com espaço de frente para baliza adversária e com tempo para definir, sai passe para as costas da linha defensiva onde está Gabriel Jesus que assiste Sterling ficando em boas condições para finalizar




Apesar da incerteza no resultado até ao fim, este foi talvez um dos jogos onde a equipa de Pep Guardiola criou mais oportunidades e esteve mais perto do golo frente a equipas jogar em bloco baixo. Aqui ficam os lances completos que foram alvo de análise neste post

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Manchester City e a distribuição frente a blocos baixos

O Manchester City pese embora a época brilhante que tem vindo a fazer, demonstra algumas dificuldades contra equipas que juntam muito as suas linhas em bloco médio-baixo. Foi assim contra  o Huddersfield, Southampton, a primeira parte frente ao West Ham e agora no último jogo com o Bournmouth (em Old Trafford a estratégia de Mourinho foi diferente e com algumas especificidades).

Se olharmos ao jogo com Southampton, West Ham e Bournmouth a disposição do City foi a mesma. Os dois médios interiores, Silva e De Bruyne, permanentemente entre linhas, os extremos a conferir largura, ficando os laterais ligeiramente por dentro e o avançado a ter igualmente liberdade para baixar e ser apoio. Obviamente que há a juntar a esta distribuição a paciência com que fazem circular a bola e o consequente seguimento, com tentativas de entrar ora com combinações nos corredores laterais (mais frequente frente a West Ham e Bournmouth) ora mais pelo meio (Southampton) e sempre que possível com passe para costas da linha defensiva.

Na imagem é possível ver De Bruyne e Silva entre linhas, a largura dada pelos extremos. Neste lance Aguero irá baixar e Silva entra na profundidade fazendo baixar a linha defensiva adversária.




No meu entendimento esta distribuição não é especialmente feliz. Guardiola enfatizou a necessidade de melhorar no sentido de criar mais oportunidades de golo e a verdade é que o Bournmouth controlou o jogo na primeira parte durante grande parte do tempo. Com os interiores a começarem a construção entre linhas  e a recuarem apenas pontualmente para tocar a bola e voltar torna-se mais fácil ao adversário, se compacto, controlar quem lá está, isto porque com os dois extremos a darem largura e profundidade os laterais também não avançam no terreno. Paradoxalmente, e apesar de ter constantemente dois ou três jogadores naquela zona não consegue jogar nesse espaço. O objectivo podia passar por criar situações de 1x1 ou de superioridade numérica nos corredores laterais para cruzamento com muita gente na área por motivos relativamente óbvios não é isso que acontece. A equipa fica assim dependente de algumas combinações nos corredores laterais com dinâmicas existentes desde o inicio como Silva a entrar no espaço entre central e lateral e Sané à largura ou a procura no momento certo do passe para as costas da linha defensiva. 

Em suma, falta capacidade de criar dúvida no adversário para conseguir progredir, facto a que também não é alheio 4 jogadores estarem em permanência no corredor lateral (laterais + extremos) e dois entre linhas numa estrutura relativamente rígida, pese embora, algumas variantes que são utilizadas à medida que a bola circula.

Este tipo de distribuição tem também outra consequência interessante. Com os médios avançados e a fazerem recuar, ainda mais linha média, é Otamendi quem assume e dirige muitas vezes a construção fora do bloco, como é possível ver na imagem. Não colocando em causa a qualidade do argentino, acredito que o jogo do City ganhe mais se Silva ou até De Bruyne (como se viu na segunda parte frente ao West Ham) possam ficar de frente para a baliza adversária mais cedo e um pouco mais recuados.

Frente ao West Ham, e a perder ao intervalo, Guardiola juntou Gabriel Jesus e Aguero na frente, passou De Bruyne para pivô e Fernandinho para central, Walker passou a fazer o corredor direito com Sterling a ir mais vezes e mais cedo para dentro. City ganhou mais variabilidade na frente com mobilidade de toda a equipa e Sterling entre linhas. Virou o resultado numa segunda parte muito bem conseguida.

No sábado, e a ganhar 1-0, Sterling voltou a ir mais para dentro, e mais vezes com Walker a adiantar-se e Silva a ficar de frente para linha média adversária normalmente na meia-direita. É esta dinâmica que dá origem ao segundo golo, com a importância de De Bruyne a ir na profundidade para desfazer linha média adversária ao arrastar adversário para Aguero receber bola.

Na imagem, Silva de frente para linha média faz passe vertical para Aguero com De Bruyne a entrar na frente para arrastar adversário. Sterling por dentro irá finalizar após passe de primeira do argentino.




Obviamente que a distribuição não resolve tudo. Na segunda parte e apesar das mudanças até o Bournmouth alterar a estrutura e avançar a pressão, o City sentiu algumas dificuldades, sendo que aí, no meu entendimento mais por falha de precisão no momento de realizar o passe vertical ou por alguma pressa quando sentiam que o Bournmouth já se encontrava um pouco exposto, juntando a isto falta de movimento na frente para criar dúvida na linha defensiva contrária

O Manchester City tem revelado comportamentos de excelência contra equipas que pressionam alto e em bloco médio mas ainda não se conseguiu impor da mesma forma contra quem recua muito no terreno. Por exemplo, os laterais mais baixos revelaram-se uma excelente ideia para atrair pressão e jogar nas costas de quem pressiona (sendo o jogo com o Stoke talvez o expoente máximo) mas contra equipas que baixam tanto, creio que é um ponto a reflectir se faz sentido que assim continue a ser, retirando assim gente de zonas mais adiantadas do terreno (com laterais na linha do pivô, extremos terão de conferir largura ao ataque)

sábado, 12 de agosto de 2017

A transição do Benfica e a exposição do Braga




O jogo entre Benfica e Braga na quarta-feira ficou marcado pela forma como o Benfica chegou rapidamente à área adversária após recuperar a bola, sendo o primeiro e terceiro golo consequência directa disso mesmo.

Além da competência dos encarnados neste momento do jogo, salta à vista a exposição dos bracarenses que além dos dois avançados colocaram os médios ala (Xadas e Vuckcevic) por dentro e entre linhas fazendo com que no momento da perda de bola estes 4 jogadores rapidamente ficassem fora da jogada, sendo também ao Benfica mais fácil pressionar em superioridade numérica no meio-campo ofensivo. A somar a isto, algumas abordagens duvidosas dos jogadores bracarenses que saíram à pressão quando o melhor parecia ser guardar posição pois a desvantagem era evidente

A capacidade do Benfica em transição começa logo nos elementos da linha defensiva que se revelaram capazes de no momento de interceptar o passe, a um toque, realizarem o passe vertical que colocava a bola dentro do bloco adversário ou até nas costas dos centrais. Neste aspecto, especial destaque para Luisão que contribuiu em muito para os desequilíbrios criados. Seferovic e Jonas mostraram-se disponíveis para receber estes passes e a linha média igualmente rápida a juntar aos dois da frente para dar apoio frontal e seguir jogada. Quase sempre a procurar largura onde podia aparecer Jonas ou Salvio, solicitados no momento certo. Portanto, o Benfica conseguia jogar dentro do bloco adversário com vários jogadores que davam apoio ao portador da bola mas também profundidade.

Aqui o lance que dá origem ao primeiro golo. Pressão a Esgaio em situação de 1x3, bola sobra para Eliseu que de primeira joga em Seferovic entre linhas, apoio de Jonas à largura e desequilíbrio criado. Nota para a exposição do Braga, quando Eliseu toca na bola com espaço não há ninguém próximo para pressionar e já estão 4 jogadores fora do lance, estas são as condições ideais para atacar rapidamente, e sendo este um dos pontos fortes do Benfica, não foi desperdiçado


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Lille - organização ofensiva vs Nantes




A chegada de Marcelo Bielsa ao Lille, como seria de esperar, trouxe novidades na forma de jogar. Desde logo, a estrutura muito próxima de um 5x2x3 somente com dois médios, Thiago Mendes como pivô e Benzia a 10 permanentemente entre linhas. A saída de bola curta começou nos 3 centrais, algo surpreendente o posicionamento dos dois alas que não conferiam muita profundidade numa fase inicial da construção até porque a posição inicial dos 2 extremos era por fora. Na imagem é possível ver a disposição referida, já com os laterais um pouco mais projectados devido ao facto de a jogada já contar com variações de corredor que fizeram a linha média do Nantes baixar e a equipa do Lille adiantar-se.




O Lille dominou na primeira parte devido a vários factores, sendo talvez o principal, a paciência que  demonstrou na fase mais precoce da construção. Os centrais assumiram um papel de destaque nesta fase (principalmente Alonso que teve um óptimo critério sobre a esquerda). Colectivamente foram capazes de levar a bola à frente por um dos corredores laterais e voltar para trás. Quando a bola entrava à direita ou à esquerda além do ala e extremo (que nesse momento vinha quase sempre dentro), Benzia ou De Preville davam também aí apoio. Apesar de raramente o Lille progredir aqui, faziam com que a bola fosse por trás e aí  com Benzia a arrastar entre linhas e os alas mais adiantados era dado espaço aos centrais para conduzirem. É o que acontece na imagem acima, ou em alternativa Thiago Mendes (jogo mesmo muito interessante) tinha condições para receber a bola e procurar muitas vezes extremo do lado contrário.

O posicionamento  inicial dos extremos por fora, não se mantinha sempre. Com a bola no ala, ou existindo espaço interior após variação da esquerda/direita para meio, os extremos procuravam espaço dentro, seja já próximos do corredor central, seja só ligeiramente para não ficarem na mesma linha que os alas. Apesar da estrutura à partida não o predizer estes movimentos foram dando presença ao Lille em zonas interiores. Quando se encontravam ligeiramente por dentro e com os alas à largura, fizeram vários movimentos em profundidade entre central e lateral a pedir bola nas costas da defesa (replicado pelos alas quando eram os extremos a dar largura como no lance que origina o penalty do 2-0).

Apesar de começarem próximos dos centrais a dar largura, os alas chegavam com bastante frequência ao último terço. Seja pelas costas do extremo após variação de flanco surgindo no apoio ou a aparecem quando a equipa atraia no meio e libertava o corredor para cruzamento. Na imagem Benzia conduz com espaço, Araújo vem para dentro e leva lateral ficando Touré com espaço para o 1x1.


Não admira portanto que o Lille tenha chegado essencialmente ao último terço através dos corredores laterais, sendo a ideia procurar boas situações de cruzamento ou condução para dentro se existisse espaço, daí a procura constante pelo passe longo para deixar o extremo/ala em situação de 1x1 com o adversário. Se bem que no caso de ser o extremo a receber rapidamente o ala procurava dar auxílio.

Existiram dois aspectos muito importantes para a circulação do Lille ter a fluidez pretendida. A capacidade dos jogadores em distinguir o momento de conduzir a bola e quando realizar o passe e também a forma como estando de costas para a baliza adversária procurava o apoio frontal, este pormenor também foi importante para variar corredor com maior frequência.

Na segunda parte o Nantes mudou a postura e o Lille apesar dos dois golos bem construídos teve mais dificuldades na construção. Os avançados do Nantes passaram a impedir a linha de passe entre centrais, forçando estes a conduzir ou a jogar para trás, e a linha média apresentou-se mais adiantada e não seguiu tanto os adversários entre linhas, mais compactos também pressionaram quando necessário entre central e ala. Com os jogadores do Nantes mais próximos a condução de bola dos jogadores do Lille não se revelou tão profícua porque passaram a enfrentar situações de inferioridade numérica em oposição aos constantes 1x1 em situações semelhantes da primeira parte.

Em transição o Lille também revelou qualidade também devido à distinção do momento entre passar e conduzir a bola por parte do portador. Procura de espaço interior do lado contrário onde foi ganha a bola, tornando a equipa perigosa com o extremo a aparecer também para desequilibrar.

A oposição do Nantes não terá sido a mais forte que o Lille irá enfrentar este ano mas o domínio foi grande, e pelo menos fica a indicação que será uma equipa muito interessante de seguir este ano.



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Transição defensiva - preparação e reacção

Quando se fala em transição defensiva o aspecto mais valorizado é a reacção à perda de bola. Concedendo que esse é um factor essencial, acredito que a forma como a equipa está disposta no campo no momento da perda faz toda a diferença assim como a forma como a bola deixa de estar na sua posse, intercepção ou duelo por exemplo.

Actualmente, em Portugal  é mesmo uma grande tendência, ganha cada vez maior preponderância o passe vertical, ou seja, o passe realizado de frente para o bloco adversário solicitando um colega entre as linhas adversárias, é visto como um dos grandes factores para desequilibrar as organizações defensivas. Embora concorde com esta visão, parece-me que existe uma tendência actual para tentar este tipo de situação de forma exagerada. Muitas vezes o passe vertical não resulta essencialmente porque a equipa adversária não está suficientemente desequilibrada, ou seja, permanece compacta e acaba por interceptar o passe ou pressionar imediatamente quem recebe bola, sendo que, há a tentação imediata de procurar o homem entre linhas.

O lance que trago aqui é o golo do Monaco frente ao PSG na Supertaça francesa este fim-de-semana que surge de um contra-ataque após intercepção de passe vertical. A meu ver, o PSG está um pouco desequilibrado no momento da perda mas também há falta de reacção à perda.

A imagem é o momento em que Fabinho intercepta o passe vertical de Motta. Aqui o PSG tem dois jogadores entre linhas, laterais projectados, sendo os quatro jogadores atrás da linha da bola são dois médios e centrais. Quando o Monaco recupera bola, Verratti e Pastore estão à frente da linha da bola. Não há ninguém próximo de Fabinho que fica com espaço para decidir, e de repente, a linha média do Monaco fica mais próxima que a do PSG.



Verratti reage mas não chega a tempo de condicionar Fabinho. Pastore não é rápido a baixar e é o suficiente para o outro médio do Mónaco Tielemans ser apoio frontal com espaço de avançado que recebe de costas e fazer a assistência. Certamente que Rabiot poderia ter fechado o espaço interior entre si e o central para impedir passe na profundidade, mas a imagem que fica é a exposição do PSG nesta situação caso o passe vertical não entrasse







quarta-feira, 2 de agosto de 2017

FC Porto - primeiras notas ofensivas

O Porto tem impressionado nos jogos amigáveis, há mudanças notórias em relação ao passado recente e os adeptos estão, legitimamente, optimistas. 

Ofensivamente Sérgio Conceição estruturou a equipa em 4x4x2 com os dois alas a começarem por dentro quando a equipa constrói. Oliver e Danilo muito próximos dos centrais, iniciam o posicionamento fora do bloco adversário, nomeadamente Danilo, podendo adiantar-se à medida que a jogada decorre, e os dois laterais bastante projectados são quem dá largura na maioria das acções ofensivas.

O treinador já disse que o objectivo é chegar rapidamente à baliza adversária. Para isso o jogo do Porto parece passar por constantes mudanças de corredor essencialmente por fora do bloco adversário, utilizando os dois médios e centrais para atingir esse objectivo. Também os alas, Brahimi e Corona, podem recuar pontualmente para junto de Oliver e Danilo. Sendo que, os avançados conferem profundidade arrastando a linha defensiva numa fase inicial mas podem depois baixar para serem apoios frontais no meio, ou apoio ao jogador que se encontra a dar largura descaindo para a alas. Outro movimento interessante é o jogador com bola que após fazer passe se desloca para a frente levando adversário, permitindo ao apoio por trás receber bola tranquilamente.

O posicionamento de Brahimi e Corona a começarem dentro e profundos, bem como de Aboubakar e Soares, tem como efeito o facto de os 4 jogadores de trás terem mais espaço para circularem a bola e variarem corredor. Se a bola entra no lateral o ala desse lado pode abrir em profundidade ou se colega precisar de apoio permanecer próximo entre linhas. O argelino quando a bola se encontra na direita pode permanecer aberto para receber bola e procurar o desequilíbrio em condução

O Porto aposta bastante em situações de cruzamento. Coloca muita gente no corredor central e zonas interiores, o que faz com que o adversário feche o meio (foi assim pelo menos no jogo com o Depor) e exista espaço nos corredores laterais para explorar. O Porto chega a cruzamento após várias variações de flanco, tendo os médios, nomeadamente Oliver, um papel de grande destaque. É o espanhol que com a bola à direita surge como apoio por trás e procura lateral do lado contrário que vai aparecer já no último terço, e sem grande surpresa, e com o espanhol que o jogo colectivo atinge uma dimensão mais elevada.

Pese embora em algumas ocasiões a equipa ter 4 jogadores entre linhas (avançados e alas) contando até com a inserção de um dos médios, a prioridade parece ser ter jogadores por trás que garantam a variação de flanco para posterior cruzamento. Os quatro de trás tentaram alguns passes entre linhas mas sem grande sucesso (situação que naturalmente poderá ser revista). No entanto, pelos motivos enunciados anteriormente o jogo entre linhas no último terço não foi muito utilizado.

Pelo menos nesta pré-época o Porto conseguiu chegar à área adversária com 3/4 jogadores e não sofrer em transição defensiva, pelo contrário, este foi o momento em que foi visível a capacidade de a espaços remeter o adversário à sua área (o primeiro e segundo golos são consequência de recuperações de bola bem dentro do meio-campo do Depor). Se é verdade que Filipe e Marcano atrás estão preparados para avançar no terreno para impedir contra-ataque, bem como a reacção à perda de bola dos colegas é muito interessante, posicionalmente o Porto nem sempre parece estar nas melhores condições dado o avanço de muitos jogadores existindo algum espaço no corredor central passível de ser aproveitado.

Sérgio Conceição disse que faltava à equipa descansar com bola porque, acrescento eu, existiu alguma precipitação em vários momentos na primeira parte. Falta também ver como será quando o adversário condicionar mais a acção dos 4 jogadores que atrás começam a construção da equipa ou quando o jogo exigir alguma redundância na circulação da bola. Neste sentido o jogo com o Estoril poderá ser muito interessante de seguir

No entanto, quer pelas dinâmicas quer pela capacidade demonstrada em transição defensiva que lhe permite passar muito tempo no meio-campo adversário acredito que o Porto será mais dominante que no ano anterior e com mais soluções para fazer frente a adversários que irão jogar com o bloco mais baixo.



domingo, 23 de julho de 2017

Manchester City - construção vertical. Causas e consequências

Na época passada um dos movimentos mais característicos do Manchester City passava pelo recuo de Aguero para o espaço entre linhas servindo de apoio frontal, de costas para a baliza adversária, como suporte ao passe vertical proveniente normalmente dos centrais ou médio defensivo.

A situação voltou a repetir-se no primeiro jogo da pré-época diante do Manchester United. O curioso é perceber como a equipa está toda preparada essa situação e  os movimentos estão ligados para Aguero ter espaço para receber bola e os colegas lhe conferirem linha de passe quando a tem.

Aqui o principal destaque vai para o papel dos dois interiores (neste jogo na primeira parte De Bruyne e a promessa Foden). Numa das situações mais frequentes em termos de construção, os laterais ficam praticamente paralelos aos centrais + o pivô com os interiores a darem bastante profundidade, existindo uma dupla consequência, faz com que a linha média adversária tenha tendência para recuar conferindo assim espaço para a saída curta e permite, em teoria, aos médios estarem mais perto de Aguero (ou do avançado) para receberem a bola. 

Na imagem com a bola no central que tem espaço para conduzir é possível ver De Bruyne a abrir, Pogba a perseguir deixando espaço para Aguero baixar. Neste caso será Yaya Toure o apoio frontal.



Importante também o posicionamento dos extremos. Preferencialmente abertos conseguem fixar os laterais com a linha defensiva estendida à largura, o que também acaba por facilitar o passe vertical.

Quanto à eficiência deste tipo de construção no jogo com o United, a verdade é que nem sempre os citizens foram capazes de esperar pelo momento certo para procurarem o passe vertical, que também surgiu quando as hipóteses de sucesso eram diminutas, nomeadamente não tendo ainda desequilibrado o suficiente o adversário, nestas situações o United ainda se encontrava compacto e acabou por controlar alguns lances recorrendo sempre à perseguição a Aguero por parte de um central. Aqui o City foi mais eficaz quando conseguiu atrair a zonas baixas mais adversários.

Esta parece ser uma solução interessante e a ser utilizada contra equipas que procuram acompanhar os médios em marcação individual. No entanto, ao tornar o jogo declaradamente mais vertical o City corre o risco de perder fluidez e consistência na posse. 

Para o futuro da equipa fica a incógnita. Esta forma de construir faz com que os laterais não se adiantem muito e possam até juntar-se ao médio defensivo, chegou a acontecer neste jogo, e disfarce a falta de médios cuja principal característica é pautar o jogo de frente para o bloco adversário (a excepção será Gundogan). No entanto, com a contratação de Walker, Danilo, Mendy, laterais muito ofensivos, e Bernardo Silva, que se notabilizou a jogar de fora para dentro no Mónaco, fica a curiosidade para  entender como Guardiola irá estruturar e montar a equipa para este ano.

No futuro, e a manter-se este tipo de construção, voltarei ao tema para explorar de forma mais aprofundada o posicionamento do pivô, que também influencia o espaço que os centrais têm para conduzir, e como decorre o jogo do City depois de a bola chegar ao jogador que recebe o passe de Aguero. Neste jogo boa parte dos problemas também se deram aí.











domingo, 16 de julho de 2017

Benfica - qualidade individual e comportamento defensivo vs Young Boys




Nos últimos dois anos o comportamento defensivo do Benfica foi amplamente elogiado, sendo inclusive comparado ao Milan de Sacchi. De forma muito resumida e principalmente frente a equipas com qualidade individual os encarnados optaram por apresentar duas linhas de 4 mais os dois avançados, a linha defensiva começava alta muito próxima da linha média baixando somente quando existia ameaça de colocação de bola nas costas por parte do adversário, não descartando a hipótese de jogar com o fora-de-jogo. Quando se sentia confortável no jogo o Benfica, e fruto de zonas de pressão bem definidas e de um bloco muito compacto, anulou o jogo entre linhas do adversário e com uma linha média + avançados bem articulada tornou raras as vezes que o adversário conseguiu explorar o espaço na profundidade.

No jogo de ontem o Benfica não foi capaz de apresentar alguns dos comportamentos tão elogiados nos últimos tempos nomeadamente no comportamento da linha defensiva, e na minha opinião, tal se deve em primeiro lugar à falta de qualidade individual evidenciada. Não colocando em causa a evolução que os jogadores poderão ainda revelar, foram evidentes o acumular de erros.

O Benfica é conhecido pelo comportamento da linha defensiva. Dada a forma como a equipa joga o controlo do espaço nas costas é fundamental bem como a resposta aos cruzamentos e aqui começaram os problemas de ontem. Por um lado, a linha média, com destaque para Filipe Augusto, não foi capaz de encurtar espaço e pressionar o portador da bola para impedir os suiços de colocarem a bola nas costas da defesa subida (1º e 2º golos). No primeiro golo do Young Boys Lisandro falha a intercepção relativamente fácil (erro individual) e a linha de médios não recua para ajudar A. Almeida e facilita finalização ao adversário, no quinto golo é Pedro Pereira que não intercepta a bola em boas condições para o fazer e Chrien não baixa com para junto da linha defensiva o suficiente. 

O segundo golo surge de uma bola nas costas da linha defensiva que não baixa quando exposta à profundidade com a bola a entrar entre Jardel e André Almeida que não fechou espaço interior, os jogadores parecem confiar no fora-de-jogo e nem Pedro Pereira, homem mais próximo, acompanha a desmarcação de Sulejmani que fica isolado frente a Varela.

Nota para o 4º golo do Young Boys. Com o Benfica a pressionar alto no corredor lateral, os dois médios centro adiantaram-se para dar cobertura ao extremo ficando um espaço considerável entre linhas. O lateral jo Young Boys jogou longo e Kalaica ganhou a primeira bola mas a segunda foi dos suiços com Pedro Pereira  a ficar fora do lance.

As ausências do Benfica neste jogo atenuariam estes problemas (Luisão, Eliseu e Grimaldo) mas as vendas de Semedo e Lindelof talvez tenham de ser colmatadas. Para já, jogadores como Hermes e Pedro Pereira bem como Lisandro parecem ainda precisar de tempo para chegarem ao nível elevado dos seus antecessores

sábado, 15 de julho de 2017

Sporting e transição defensiva - o 2º golo do Valência

No post anterior refiro alguns aspectos que têm marcado os jogos amigáveis do Sporting neste inicio de época, nomeadamente  os interiores muito por dentro e alguma falta de coordenação dos dois jogadores a alinhar no meio-campo.

O 2º golo do Valência surge após Mathieu perder a bola no meio-campo dos espanhóis mas vale a pena perceber o enquadramento de todo o lance que começa com Bruno Fernandes a baixar para ter bola sobre a esquerda do ataque. Neste momento Iuri Medeiros, ala, já está entre linhas e Bas Dost recua com Doumbia a ameaçar ir na profundidade procurando as costas da linha defensiva. Fábio Coentrão baixo acaba por ser a linha de passe utilizada e neste momento Iuri faz diagonal para fora. Nota para o Valência que com duas linhas de 4 compactas e alto + os dois avançados consegue controlar o lance.



O Sporting acaba por rodar o jogo por trás até à direita onde é o lateral que recebe. Deste lado, Podence (ligeiramente por dentro), Dost e Doumbia procuram profundidade os três que é controlada pela linha defensiva valenciana. Jogo volta aos centrais




No momento em que a bola volta à esquerda e Mathieu inicia a condução de bola as duas linhas de 4 do Valência estão muito juntas, também pelo profundidade dada anteriormente pelo Sporting, que fez os espanhóis recuar e pelo posicionamento dentro e adiantado de Iuri. É isto que permite ao francês ter espaço para levar a bola. Os problemas começam aqui. Rodrigo, avançado do Valência impede com a orientação do corpo a mudança de corredor e Mathieu prefere não travar condução antes de ser encurralado. Bruno Fernandes também não é rápido a dar linha de passe quando o francês começa a conduzir bola assumindo, talvez, que este iria continuar a progressão.





Mathieu continua a conduzir e é possível verificar uma desvantagem numérica e espacial. E aqui, no meu entendimento é também visível o principal paradoxo do jogo sportinguista no momento. Apesar de ter constante presença entre linhas, tem dificuldade em jogar dentro do bloco adversário principalmente quando este é compacto (Valência e Belenenses). Mathieu tenta o passe entre linhas mas Iuri está rodeado de 4 jogadores. Os dois avançados ocupam uma posição à mesma altura que o português e o passe é naturalmente interceptado



Após a perda de bola o posicionamento dos dois médios que estão muito próximos à profundidade e saem ambos na pressão a Rodrigo deixando um espaço enorme no meio passível de ser aproveitado, permitem à equipa do Valência chegar à área do Sporting rapidamente.



Tal como contra o Belenenses na semana passada, neste jogo o posicionamento ofensivo do Sporting levou a que o adversário fechasse o corredor central sendo complicado aos leões fazerem a bola chegar a esse espaço com bola. Para jogar entre linhas com maior frequência frente a equipas que fecham bem o meio é importante criar vários engodos e desorganizar o adversário. Por outro lado, como foi visível no lance aqui apresentado, com os jogadores muito profundos e passe vertical a solicitar entre linhas em caso de intercepção a equipa pode ficar desequilibrada pois no momento da perda de bola uma quantidade assinalável de jogadores poderá ficar à frente da linha da bola expondo a linha defensiva obrigando-a a baixar


domingo, 9 de julho de 2017

Sporting 2017/2018 - Primeiras impressões e gestão entre linhas

A principal novidade no Sporting 2017/2018 frente ao Belenenses em comparação com a temporada anterior acabou por ser a colocação dos dois alas, Iuri Medeiros e Matheus Oliveira, em zonas interiores/corredor central, sendo esse o ponto de partida que acabou por condicionar a restante dinâmica.

Iuri e Matheus começavam já por dentro (coincidindo em zonas interiores e entre linhas) com Dala também a baixar para tentar receber. Ver imagem abaixo





Naturalmente, os laterais ficaram encarregues de conferir largura. Piccini à direita apareceu mais vezes adiantado, nomeadamente nos primeiros 20 minutos, que Geraldes à esquerda. 

Não tendo que ser obrigatoriamente desta forma, a colocação dos dois alas a começar dentro e Dala a pedir em apoio do lado da bola, parece ter sido causa de um aspecto que marcou a primeira parte, a falta de profundidade do Sporting e consequente incapacidade para chegar com frequência ao último terço.

Os alas por dentro a recuar para dar apoio ao portador da bola e os avançados sem realizarem movimentos para a frente, raramente e também por acção dos laterais os leões conseguiam fazer recuar a linha defensiva do Belenenses que se apresentou alta e avançar no campo.

Petrovic e Battaglia no meio-campo contribuíram para a aglomeração, e por vezes sobreposição, no corredor central. Jogaram muito próximos entre si com o sérvio a colocar-se demasiado adiantado sem se revelar uma linha de passe válida, situação parcialmente resolvida na 2ª parte quando baixou com maior frequência para junto dos centrais realizando uma saída a 3.




Na imagem é possível verificar o referido acima.  Piccini adiantado  faz linha defensiva contrária baixar com 5 jogadores entre linhas todos de frente para o portador da bola. Paradoxalmente, o Sporting não conseguiu jogar nesse espaço, na minha opinião, por duas razões: a colocação dos alas entre linhas numa fase precoce da construção fez com que o Belenenses fechasse o corredor central e não visse necessidade de baixar linha defensiva não aumentando o espaço de jogo efectivo, controlando a largura com os extremos a acompanhar laterais, e também porque Iuri e Matheus baixavam para fora do bloco azul, fazendo com que quando surgia um passe vertical entre linhas o portador da bola ficasse sozinho com poucas opções de passe (inclusive à largura), agravado pelo facto de o adversário estar concentrado no meio. Na imagem Dala recebe entre linhas um passe de Iuri, Battaglia e Piccini não acompanham a progressão do lance e Matheus demora a fazê-lo, ficando o angolano praticamente sozinho contra vários jogadores adversários.




Na primeira parte a excepção a estes lances aconteceu quando Dala descaia  entre linhas a passe de Iuri, que havia recuado, procurava Piccini à largura




Na fase de construção o Sporting tentou ainda Battaglia a abrir na esquerda com a projecção do lateral, uma situação que carece ainda de treino.

Na 2ª parte o Sporting modificou algumas destas situações. Desde logo, com a entrada de Bruno Fernandes passou a ter alguém preocupado em arrastar a defesa contrária (que de si também já se mostrou mais conservadora) através de vários movimentos explorando também o espaço de dentro para fora, algo recorrente dos jogadores nesta posição com Jorge Jesus. Na imagem, o jogador português leva os defesas e Petrovic procura a largura no corredor oposto.




Por outro lado, Petrovic apareceu a jogar uns metros mais atrás, o suficiente para Battaglia (enquanto estiveram em campo) ter um pouco mais de espaço para jogar. Os alas apesar de estarem em espaço interior não procuraram tanto o corredor central e a aglomeração da primeira parte desapareceu, fazendo com que existisse maior dúvida na defesa adversária, chegando o Sporting com maior facilidade ao último terço adversário.

Globalmente o jogo do Sporting trouxe duas novidades que a serem mantidas, com o devido treino me parecem positivas para o jogo da equipa: mais gente no corredor central em comparação com a época anterior, e relacionado com este aspecto, a correcção daquele que foi, no meu entendimento o maior entrave ao desenvolvimento da equipa em 2016/2017, a procura constante de combinações nos corredores laterais para acabar em cruzamento, onde a variação de corredor não era equacionada demasiadas vezes, forçando pelo mesmo lado.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Gil Dias - Condução no espaço entre linhas vs Sporting




O segundo e terceiro golos do Rio Ave no passado fim-de-semana frente ao Sporting ficam marcados pela acção de Gil Dias (que até acabou por ser o marcador num dos lances) que foi o protagonista dos desequilíbrios criados em lances com inicio semelhante

Ambas as situações têm em comum o facto de o jogador português receber à largura pela direita e conduzir para dentro no espaço entre linhas onde o Sporting apresentou  algumas vulnerabilidades não muito usuais. Desde logo a incapacidade de Campbell quando baixava para junto de Bruno César enquadrar entre Gil e a baliza para, no mínimo, temporizar a acção do adversário. Nos dois golos, o costa-riquenho andou atrás da condução do portador da bola. Depois a incapacidade do meio-campo, Adrien no primeiro golo e mais claramente William no segundo (até com alguma displicência), de bascularem para a esquerda e ocuparem o espaço entre linhas. Bruno César também não recuou quando foi ultrapassado/ocupou espaço interior e permitiu progressão.

Ainda assim todo o mérito para o Rio Ave. Os seus homens da frente fizeram com que a linha defensiva do Sporting não subisse permitindo espaço entre sectores, e todo o mérito para Gil Dias que em condução soube aproveitar essa situação. Existe a tendência para explorar o espaço entre defesas e médios através de passe para essa zona, mas como mostrou o jogador português também é possível entrar em condução através de uma aceleração e condução em espaço interio

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A construção do Borussia Monchegladbach e a pressão do Bayer Leverkusen



Jogo interessante, como seria de esperar, entre Borussia Monchegladbach e Bayer Leverkusen principalmente pela capacidade que ambas as equipas demonstraram em pressionar o adversário.

O Borussia Monchegladbach forçou a saída curta através dos 3 defesas, com Strobl e Kramer à frente (ainda que este, por vezes, procurasse abrir na esquerda, conferindo total largura) e os externos (Traoré e Wendt) a dar largura. Os avançados Raffael e Hahn alternavam entre movimentos à profundidade, que incluíam ir de dentro para fora para receber bola longa,  e ligeiros recuos para serem apoios frontais ao passe vertical que vinha de trás.

O Bayer Leverkusen respondeu no habitual 4x4x2 clássico e pressão alta. Permitiam aos 3 de trás receber bola. Primeira preocupação consistia em fechar linhas de passe para o meio por parte dos dois avançados, impedindo ligação entre centrais e duplo pivô. Alas num primeiro momento fechavam também linhas de passe interiores entre si e os avançados impedindo que exteriores recebessem bola, podendo sair à pressão ao central com bola do seu lado quando avançados já tivessem condicionado o jogo para esse lado (e também impediam bola de regressar ao meio). Um médio centro sempre mais adiantado, na linha dos alas, e outro mais preocupado em controlar espaço entre linhas (Stindl, o 10 adversário, aparecia permanentemente nesse espaço) e em ser cobertura quando existia jogo longo.



Imagem da pressão inicial do Bayer Leverkusen. Çalhanoglu e Volland a impedirem passe para corredor central com alas em posição interior também preocupados em impedir passe para jogadores à largura, e prontos a sair à pressão aos centrais. Um médio centro mais adiantado

Com os alas permanentemente adiantados, quando a bola entrava nos externos eram os laterais que saíam à pressão não permitindo recepção de bola com espaço, e tendo o auxílio da linha lateral. Centrais do Leverkusen também pressionavam se avançados contrários baixassem ligeiramente para tentarem receber bola. 

O Borussia Monchegladbach conseguiu ultrapassar a pressão contrária quando um dos avançados saiu a pressionar o central que se encontrava no meio, Cristensen, e abriu espaço para o pivô receber bola, uma vez que, essa linha de passe não foi condicionada. Nota para o facto de quando os jogadores da frente eram ultrapassados e a bola entrava no meio-campo defensivo, rapidamente o Leverkusen agrupava em duas linhas de 4. Por outro lado, e já na segunda parte, o Gladbach também tentou o jogo directo para as costas da defesa, onde  os avançados tentaram receber bola com movimentos de dentro para fora aproveitando alguma descoordenação da linha defensiva (último lance do video).

Dois aspectos que me pareceram importantes para o sucesso da pressão do Leverkusen à primeira fase de construção contrária: a constante capacidade de orientar a bola para os centrais esquerdo e direito do Gladbach e aí pressionar, tendo sempre como prioridade fechar linhas de passe para o meio e a reacção dos jogadores que estando adiantados em relação à linha da bola reagiram muito forte para baixar e pressionar o portador. É verdade que a resposta do Gladbach deixou um pouco a desejar neste aspecto mas não é a primeira vez que a pressão asfixiante do Leverkusen causa problemas





segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Como arrastar linha defensiva - Alemanha olímpica e Arsenal




Trago dois lances que aconteceram este fim-de-semana com semelhanças na exposição da linha defensiva e na forma como quem atacou criou espaço para finalizar. Nos Jogos Olímpicos, no primeiro golo da selecção alemã, Brandt recebe entre linhas no corredor central com bola vinda da direita, um colega entra no espaço entre central e lateral, arrastando o defesa esquerdo português, Fernando Fonseca, permitindo a Gnabry finalizar em boas condições (sendo verdade que individualmente eram bastante superiores, os alemães demonstraram todas as debilidades defensivas colectivas dos portugueses já perceptíveis nos encontros anteriores). Em Inglaterra no Arsenal-Liverpool, Iwobi recebeu bola entre linhas em espaço interior à esquerda, com bom timming Ramsey e Alexis foram na profundidade sobre a última linha do Liverpool, sendo que o galês arrastou o Klavan central do lado contrário e permitiu o golo a Walcott.

Em ambas as situações decisivo o arrastamento dos defesas por parte de quem entrava à profundidade para criar o desequilíbrio. Com efeito, o movimento dos jogadores que atacam a última linha, criando dúvida nos defesas, parece-me ser um aspecto, por vezes, negligenciado em muitas equipas, nomeadamente em Portugal, com as equipas a preferirem procurar logo uma opção em largura antes de arrastar o lateral e a restante linha defensiva, fazendo com que quem receba a bola tenha naturalmente menos espaço para progredir 

domingo, 3 de julho de 2016

Construção Itália vs Espanha




No jogo que opôs Itália e Espanha nos oitavos-de-final do Europeu, um dos aspectos que esteve em maior evidência foi a construção italiana, que permitiu não só relativo equilíbrio na posse de bola, mas também chegadas regulares à baliza espanhola.

A Itália saiu quase sempre curto através dos 3 centrais (Barzagli à direita e Chiellini à esquerda), quanto maior fosse a pressão espanhola, mais largura davam. Procuraram essencialmente a referência à largura (por norma os externos) ou o passe vertical para um dos médios, Giaccherini à esquerda ou Parolo à direita, recuavam e juntavam-se a De Rossi para receber a bola à frente, constituindo-se também como apoios frontais.

Um aspecto bastante interessante da selecção italiana neste momento do jogo foi a largura dada por Giaccherini à esquerda, mas também, ainda que menos vezes por Parolo à direita. Estes movimentos  na 1ª fase de construção, arrastaram jogadores espanhóis, retirando-os da zona central, e quando os italianos conseguiam fazer rodar jogo para o meio (o que nem sempre aconteceu, porque também eram pressionados nesse momento) conseguiam progredir em boas condições. Quando os dois interiores se adiantavam, era De Rossi com os centrais que dirigiam jogo a partir de trás, com o médio da Roma, tendo espaço e tempo dada a ausência de pressão espanhola, a recorrer ao passe longo para progredir

A competência italiana não se ficou pelas fases mais precoces da construção. Com a Espanha a pressionar alto, e apesar de colocar muitos jogadores em zonas recuadas para responder, a Itália foi capaz de jogar com os dois avançados através de passes verticais/jogo directo. Pellé e Éder saiam da marcação, recuavam, e vinham receber no grande espaço entre linhas, derivado do adiantamento dos médios da Espanha. Nota para a constante reacção ao movimento da bola por parte dos italianos. Quando alguém recebia entre linhas tinha apoio próximo, e também na profundidade para fazer bola seguir, além dos avançados também Giaccherini e Parolo apareciam nesse espaço de trás para a frente. (e o facto de por vezes irem de dentro para fora, também arrastou adversários para avançados receberem com mais espaço).

A resposta espanhola à competência da Itália não parece ter dado grandes resultados. Tentaram pressionar alto e ainda que tivessem impedido a construção em algumas situações, foram ultrapassados com frequência. Os 3 da frente (Nolito, Silva e Morata) muito preocupados em sair na pressão aos centrais mas não conseguiram evitar que a bola entrasse nas suas costas, (muitas vezes não ajustando para se posicionarem entre a bola e a baliza permitindo passes interiores). Iniesta e Fabregas arrastados para o corredor lateral, sem que os da frente recuassem e fechassem espaços interiores, fizaram com que a Itália quando conseguia sair pressão à esquerda ou à direita tivesse espaço para progredir, quer por fora do bloco, quer solicitando das alas para o espaço entre linhas os avançados que, como já foi referido, tiveram muito espaço para receber. Foi notório ao longo do jogo o desconforto espanhol sem bola.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Por terras de França III

Algumas notas sobre a Polónia

No jogo frente à Suíça a Polónia apresentou-se  no habitual 4x4x2 clássico. Defensivamente fazem por ser compactos, têm um golo sofrido em 4 jogos, mas com bola são previsíveis, pese a qualidade individual na frente, sendo mais perigosos quando conseguem chegar rapidamente à baliza adversária após ganharem a bola.
Sem bola os polacos mantêm o 4x4x2 clássico (por vezes assumem variante 4x4x1x1). Lewandowski e Milik numa primeira linha de pressão tentam fazê-la juntos ocupando o meio, sendo que, muitas vezes não chegam a tempo de impedir progressão por espaço interior (a Suiça aproveitou este espaço maioritariamente através da condução do lateral, mas William ou um dos médios pode dirigir jogo a partir daqui), quando pressionam aí, deixam corredor central aberto. Apesar de os dois médios interiores estarem relativamente distantes dos colegas da frente, podem avançar para pressionar jogador que recebe bola e tentar não deixar enquadrar com a sua baliza se situação for favorável a isso. São efectivos e criteriosos no momento de pressionar mas é possível jogar nas suas costas.
Os extremos polacos defendem em função do lateral adversário. Na 1ª fase de construção se não há adiantamento, quando adversário recebe bola saem à pressão, se avançam acompanham directamente permanecendo à largura. Se Portugal optar por adiantar desde cedo os laterais poderá conseguir instalar-se mais tempo no meio-campo ofensivo, pois com os extremos a acompanhar laterais, os polacos perdem capacidade de pressão em zonas mais adiantadas.
A linha defensiva começou a partida de sábado subida e bem próxima dos médios. Os laterais têm tendência a acompanhar o extremo, mesmo que este se encontre em zonas baixas, pressionando mal este recebe bola. Nesta circunstância, são os centrais que asseguram a cobertura aos laterais e também quem avança e pressiona entre linhas quando bola entra nesse espaço, novamente se existirem condições para isso. Uma particularidade da linha defensiva polaca, reside no posicionamento dos laterais, apesar de pressionarem o extremo à largura, quando a bola está no meio e têm adversário directo entre linhas, ficam fixados na sua marcação e é possível explorar as suas costas neste momento.

A figura – Lewandowski

Lewandowski, avançado do Bayern Munique, é o jogador polaco com maior currículo. Na selecção, assume maior protagonismo na construção de jogo e baixa bastante para tocar mais vezes na bola e sai com frequência da zona de acção dos centrais. Varia entre jogar de costas como apoio frontal (mais frequente quando é referência em transição no meio) e enquadrar com a baliza adversária mesmo entre linhas para procurar fazer passe de ruptura. Não tem sempre o melhor critério, já que, por vezes força demasiado a progressão, mas é uma ajuda valiosa

Cai com frequência nos corredores laterais para receber bola, principalmente em transição, o que dificulta o aparecimento em zonas de finalização, e também por isso ainda não tem ainda qualquer golo neste Europeu.

(Texto originalmente publicado no Jornal Único)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Alemanha e a gestão da ruptura




A propósito do jogo alemão neste Europeu, já aqui tinha referido as dificuldades sentidas em ultrapassar a última linha adversária em parte pela ausência de movimentos de ruptura nas costas da defesa de adversária, sendo este, naturalmente um espaço pouco aproveitado pela Alemanha nos primeiros dois jogos.

Na partida frente à Irlanda do Norte (e ressalvar que a oposição não foi tão forte) os alemães aparecem mais disponíveis e preparados para efectuar movimentos de ruptura, quer através da movimentação dos homens na última linha a forçar profundidade, quer por homens que apareciam de trás para a frente.

Muller juntou-se muitas vezes no corredor central ao avançado Gomez, deixando o lado direito a cargo de Khedira ou Ozil que por vezes aparecia na zona. Com a habitual forte presença entre linhas (já que, à esquerda Gotze também vinha para dentro) a Alemanha conseguiu romper a defesa norte-irlandesa, com os jogadores que tinham bola nesse espaço muitas vezes a procurarem jogar a um toque para quem aparecia na profundidade. Neste aspecto em concreto, especial destaque para Muller que foi mais quem entrou na ruptura com um timming assinalável. E os movimentos à profundidade não serviram somente para receber bola com a defesa irlandesa ultrapassada, também permitiram que o jogo exterior fosse melhorado, uma vez que, não raras vezes os laterais irlandeses foram arrastados para dentro permitindo a quem recebia a bola por fora, mais espaço para definir lance.

A Alemanha tem conseguido, fruto de um futebol de qualidade assinalável, jogar dentro do bloco adversário, fazendo bom uso do corredor central e espaço interior. No entanto, era notório que faltavam movimentos de ruptura dos jogadores sem bola na última linha para desequilibrar a defesa adversária, até porque com tanta presença entrelinhas, mas sem entradas no espaço, o jogo acabava por ir para os corredores laterais, não sendo aproveitadas as boas condições que os próprios jogadores criavam. No último jogo, ainda que com aspectos passíveis de serem melhorados, "bastou" a equipa identificar alguns momentos em que os movimentos de ruptura seriam pertinentes e a dificuldade em chegar ao último terço foi bem menor, até porque o portador da bola soube identificar o momento de procurar esse espaço. 

Nota final para a mecanização já referida acima, com bola a entrar entre linhas (muitas vezes vinda de fora) e jogador que recebe nesse espaço joga a um toque para entrada de terceiro homem na ruptura, esta é a situação que, por exemplo, originou o golo

terça-feira, 21 de junho de 2016

Por terras de França II

Portugal e as dificuldades no jogo de criação

Frente à Áustria Fernando Santos em comparação com o jogo anterior retirou um médio, João Mário, e lançou um extremo, Quaresma, mas os problemas perante uma defesa recuada e compacta mantiveram-se.
Na partida de sábado enfrentando a postura expectante da Áustria que defendia com duas linhas de 4 no seu meio-campo, Portugal viu-se obrigado a assumir a posse de bola. Com Nani preferencialmente no meio, os extremos Ronaldo, à esquerda, e Quaresma à direita (ainda que pontualmente fossem trocando com Nani também a aparecer nos corredores laterais) começaram por dar largura ao ataque e a receber bola junto à linha lateral e à medida que o jogo avançava foram cada vez mais procurando espaços interiores, permitindo o adiantamento mais frequente dos laterais Vieirinha e Guerreiro. No meio-campo, a William Carvalho a dirigir jogo atrás juntava-se André Gomes mais pela esquerda, enquanto que, Moutinho à direita tinha tendência para progredir juntando-se aos jogadores da frente, acabando por arrastar marcação e permitindo que o central do seu lado, Pepe, tivesse espaço para avançar com bola e assumisse um papel de destaque na construção de jogo (aspecto em que não esteve feliz não conferindo fluidez à circulação somando perdas de bola). Na segunda parte foi André Gomes que se adiantou mais vezes à esquerda, permanecendo Moutinho recuado.
Pese embora, Portugal tenha feito o suficiente em termos de oportunidades de golo para vencer o jogo, continuam evidentes algumas dificuldades em criar perigo. Quaresma e Ronaldo quando iam para espaços interiores limitavam-se a jogar de costas para a baliza adversária e a devolver ao apoio frontal, dificilmente recebiam, ou procuravam receber, bola entre linhas recuando até à linha média austríaca tocando a bola para trás. O avanço de João Moutinho permitiu a Pepe espaço para construir mas também raramente conseguiu receber a bola no meio, dentro do bloco adversário, isto fez com que Portugal chegasse ao último terço essencialmente pelos corredores laterais, nomeadamente através de variações de corredor através de passes longos onde William Carvalho se destacou. Quando a bola se encontra nos jogadores de trás (médios e defesas) existe a preocupação de existir movimentos de aproximação ao portador da bola, mas o mesmo não acontece quando a bola entra entre linhas, sendo que quem recebe nessa zona só esporadicamente consegue fazê-lo de frente para a baliza adversária e continuar a progredir.
Desta forma, e para chegar perto da baliza austríaca a Portugal restou o bom envolvimento de Raphael Guerreiro pela esquerda e vários cruzamentos onde a selecção consegue colocar um número considerável de jogadores zona na área para finalizar mas os defesas adversários foram quase sempre mais fortes.

Nota final para a boa reacção à perda da bola. Portugal raramente permitiu contra-ataques adversários. Mérito dos médios que se encontravam atrás da linha da bola no momento da perda, ainda que João Moutinho e William Carvalho pela forma como escolheram o timming para pressionar, distinguindo as situações onde podiam desarmar ou simplesmente temporizar acção do adversário, mereçam especial destaque.

A evolução de Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo alcançou o estatuto de um dos melhores jogadores do mundo nos últimos anos essencialmente por aquilo que fazia (e faz) no último terço do campo. Partindo preferencialmente da esquerda é muito forte a definir próximo da baliza adversária, de trás para a frente, sendo que, aparecia mais do que estava em zonas de finalização e no corredor central. Nos últimos tempos cada vez mais Ronaldo é visto com maior frequência no meio, e no caso da selecção, em zonas até bastante recuadas. Sendo a evolução natural num jogador das suas características, Cristiano ainda parece longe da excelência nas suas novas funções. A pressão é feita com mais jogadores e o tempo para decidir escasseia, e terá de ajustar o perfil de decisão quando tem a bola, nomeadamente o timming em que a solta. Nem sempre equaciona o envolvimento com os colegas e força demasiado a finalização, não sendo nessa zona tão profícuo como uns metros mais à frente. 


(Texto originalmente publicado no Jornal Único)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Algumas notas sobre a Áustria

O segundo jogo da selecção portuguesa em França promete ser bastante diferente do primeiro frente à Islândia. Desde logo pela pressão a que os austríacos estão sujeitos em função de derrota por dois golos frente à Hungria mas também devido à forma como irão encarar o jogo.

A Áustria deverá apresentar-se em 4x4x1x1 com um pressing dos mais altos que podemos ver no Euro-2016. Com um bloco médio-alto, a pressão tem inicio a meio do meio-campo adversário. Janko é o homem mais adiantado, com o 10 Junuzovic a juntar-se de trás para a frente na pressão aos centrais. Se Portugal optar por sair a jogar curto, a linha defensiva pode contar com pouco tempo para definir os lances. Neste momento do jogo, Arnautovic à esquerda permanece em posição interior e dificilmente recua até bola entrar nas suas costas, mesmo que lateral se adiante. À direita apesar de partir de posição semelhante Harnik tende a recuar mais cedo se necessário.

O grande desafio de Portugal para este jogo será responder à pressão constante dos austríacos, porque se a primeira linha defensiva é arrojada, Alaba e  Baumgartlinger, os dois homens do meio-campo, também parecem ter ordem para encurtar espaços. São quem faz a cobertura aos extremos quando a bola entra nas suas costas e mesmo que por vezes sejam só dois a cobrir um espaço considerável de terreno, raramente abdicam de pressionar quem se encontra de frente para as duas últimas linhas austríacas, por vezes ainda dentro do meio-campo ofensivo. E aqui parece-me estar uma das chaves do jogo de amanhã. A construção portuguesa ainda não convenceu com os movimentos de dentro para fora do bloco dos médios no auxílio a Danilo, ficam muitas vezes de costas para a baliza adversária e podem somar perdas de bola importantes nessa zona do terreno, que se não originarem situações de golo para os austríacos podem pelo menos dificultar um jogo fluído da selecção, porque sem o adiantamento dos laterais e com os médios por vezes sobrepostos fora do bloco adversário, a Áustria pode sentir-se confortável no jogo.

A boa notícia é que apesar de algum arrojo na pressão, a linha defensiva da Áustria recua com facilidade e reage baixando aos movimentos em profundidade dos homens da frente, nomeadamente os centrais. Com Alaba e Baumgartlinger a cobrirem muito espaço a bola pode entrar nas suas costas ou na zona entre estes e os alas. É verdade que os austríacos contra a Hungria mostraram-se reactivos, ou seja, apesar do espaço que concedem quem é ultrapassado pela linha da bola recua rapidamente mas há condições para atacar com qualidade. Outro aspecto a explorar poderá ser a variação de corredor. Com os extremos adiantados na pressão, e a tendência dos dois homens do meio para bascular e pressionar haverá espaço interior do lado contrário ao da bola e este poderá ser um meio interessante para entrar no meio-campo adversário.

Ofensivamente variam entre as saídas curtas pelos centrais com ajuda dos médios e jogo directo para o avançado Janko que se disputa primeira bola em zona interior tem apoio dos extremos, enquanto que meio, Junuzovic aproxima. Os extremos variam entre ir ligeiramente dentro e permanecerem à largura, mas são os responsáveis pela característica ofensiva mais visível, (e que acaba por ser mais determinante) a grande profundidade que dão ao ataque. Não é raro ver Arnautovic e Harnik na mesma linha de Janko, bastante adiantados mesmo quando a bola ainda está recuada. Isto origina alguns passes verticais/jogo longo pelos colegas de trás que não foram especialmente eficazes contra a Hungria, até porque o jogador que recebe a primeira bola, se não for Janko, por vezes não tem o apoio devido. Ainda assim, nota para o facto de a Áustria quando tem a bola durante mais tempo pode colocar facilmente 4 jogadores à entrada da área adversária, o que retirando fluidez à circulação atrás, pode causar dificuldades à linha defensiva portuguesa se esta baixar sem o apoio dos médios.

Em zonas mais baixas, além dos centrais Alaba e Baumgartlinger tentam uma construção mais curta. Um deles pode inserir-se entre linhas à procura do passe vertical ou da referência à largura (laterais adiantam-se quando extremos vão para dentro, ainda que Fuchs tenha ensaiado entrar no espaço entre linhas com Arnautovic à largura). Se Portugal optar por baixar ligeiramente o bloco, tem na recepção de bola dos passes verticais entre linhas um bom momento de pressão, nomeadamente quando quem recebe bola são os extremos que recebem de costas e sem apoio próximo, não existe aproximação dos colegas nesse momento tornando complicada a vida do portador da bola. Pese estes momentos de alguma pausa, o jogo preferencial da Áustria parece ser colocar rapidamente os extremos de frente para a baliza adversária, através de variações de corredor. Importante médios portugueses assegurarem ocupação do meio, para que as solicitações dos extremos sejam por fora e não ultrapassem a linha média para não expor linha defensiva.

A transição defensiva austríaca também aparece como um aspecto passível de ser explorado, na minha  opinião. Com os 4 da frente muito adiantados, Alaba e Baumgartlinger têm no momento da perda especial importância (se um deles não estiver junto dos avançados). Mesmo aqui os dois do meio nem sempre abdicam de pressionar, sendo que, a linha defensiva, nomeadamente os centrais têm tendência para recuar. Com alguma preparação creio que existem condições para colocar a bola nas costas dos médios austríacos e progredir a partir daí em condições altamente favoráveis.

A selecção portuguesa é naturalmente favorita, e num jogo contra uma equipa que não deve ter grandes problemas em pressionar mais alto, é necessário controlo emocional e que os jogadores sejam mais criteriosos ao contrário do que aconteceu após o golo da Islândia na primeira jornada, para manterem a serenidade mesmo que comecem por perder algumas bolas fruto da pressão. 

terça-feira, 14 de junho de 2016

Por terras de França I

Alemanha – Primeiras Impressões

No jogo frente à Ucrânia, os alemães mantiveram a identidade que os caracteriza nos últimos anos. Domínio do jogo através da posse de bola, preferencialmente no meio-campo adversário envolvendo muita gente no ataque.
Na primeira parte a Ucrânia apareceu recuada com médios e defesas a fazerem duas linhas de 4 juntas, mas baixas começando a pressionar já bem dentro do seu meio-campo. A Alemanha respondeu com o adiantamento dos laterais, que davam largura quando equipa tinha bola, preferencialmente Kroos na meia-esquerda e Khedira na meia-direita a dirigirem jogo de frente para o bloco ucraniano com o auxílio dos centrais (especialmente Boateng). Os alas Draxler e Muller procuravam frequentemente espaços interiores, juntando-se a Ozil Goetze no meio, fazendo com que o espaço entre as duas linhas ucranianas estivesse preenchido com no mínimo sempre alemães que garantiam que a posse de bola da equipa progredisse.
A Alemanha na primeira parte, regra gera, foi bastante criteriosa quando teve bola, preferencialmente através de passe curto, alternando com bolas longas a procurar as costas da defesa. Os movimentos dos avançados fizeram com que a restante equipa ganhasse espaço para jogar, ao fazer recuar a linha defensiva ucraniana. À mobilidade dos 4 da frente, os jogadores de trás foram pacientes realizando o passe vertical que permitiu avançar no momento certo, (destaque para Kroos) ainda que Boateng tivesse revelado algum desacerto inicial na procura do extremo/lateral do lado oposto ao seu. À direita do ataque alemão o extremo esquerdo ucraniano Konoplyanka fechava o seu corredor baixando para junto da linha defensiva, ao passo que Yarmolenko do outro lado se juntava aos médios estando mais adiantado. O recuo de Konoplyanka para junto dos defesas permitiu à Alemanha mais espaço para jogar, ainda para mais sendo esse o espaço de Khedira que se adiantava mais que Kroos. Em alguns momentos existiu aglomeração nessa zona (pois Ozil e/ou Goetze juntavam-se a Muller e ao lateral Howedes) com a Ucrânia a fechar bem e os alemães procuraram variar o jogo através de passe longo para o lado contrário para Hector ou Draxler que conferiam largura (com Yarmolenko muito por dentro) havia espaço para jogar.
Pese embora o mérito na forma como entraram  frequentemente no bloco ucraniano, a Alemanha revelou dificuldades em ultrapassar a linha defensiva adversária que se apresentou muito coordenada, raramente permitindo que a bola entrasse suas costas, obrigando os alemães a procurar o jogo exterior através de cruzamentos no último terço ainda que com boa presença em zona de finalização.
Na segunda parte, a Ucrânia entrou com os médios a pressionarem mais à frente. Como a linha defensiva se manteve conservadora a Alemanha jogou entre linhas com maior facilidade, ainda que os problemas no último terço se tenham mantido, mesmo em situação de contra-ataque, mais frequente dada a desvantagem ucraniana no marcado.
Defensivamente, e ainda que seja preciso uma melhor análise, deu para ver que nem sempre a equipa reage colectivamente à pressão exercida por um colega, o que permite ao adversário jogar, bem como o tempo exagerado que por vezes os médios demoram a juntar à linha defensiva.

Destaque individual – Dimitri Payet

Primeira grande figura do Euro-2016 e destaque inteiramente merecido não só pelo golo que valeu a vitória mas pela fantástica exibição. Não desiludiu e não só pela indiscutível qualidade técnica e de passe. Na primeira parte começou na ala esquerda mas cedo procurou espaço interior e até foi para fora do bloco adversário para definir jogo. Sempre criterioso com a bola nos pés, a procurar envolvimento e tabelas com os colegas, muito bem a definir o timming para soltar a bola. Marcou o ritmo de jogo da França, sabendo quando temporizar o ataque por forma a ter mais e melhor apoio ou progredindo através da condução. Boa inserção no espaço entre linhas como é prova o lance do segundo golo. Quando após as substituições passou a jogar definitivamente no meio foi evidente que sabia quando devia afastar ou aproximar do portador de bola para lhe dar o melhor apoio

(Texto originalmente publicado no Jornal Único)