sexta-feira, 17 de junho de 2016

Algumas notas sobre a Áustria

O segundo jogo da selecção portuguesa em França promete ser bastante diferente do primeiro frente à Islândia. Desde logo pela pressão a que os austríacos estão sujeitos em função de derrota por dois golos frente à Hungria mas também devido à forma como irão encarar o jogo.

A Áustria deverá apresentar-se em 4x4x1x1 com um pressing dos mais altos que podemos ver no Euro-2016. Com um bloco médio-alto, a pressão tem inicio a meio do meio-campo adversário. Janko é o homem mais adiantado, com o 10 Junuzovic a juntar-se de trás para a frente na pressão aos centrais. Se Portugal optar por sair a jogar curto, a linha defensiva pode contar com pouco tempo para definir os lances. Neste momento do jogo, Arnautovic à esquerda permanece em posição interior e dificilmente recua até bola entrar nas suas costas, mesmo que lateral se adiante. À direita apesar de partir de posição semelhante Harnik tende a recuar mais cedo se necessário.

O grande desafio de Portugal para este jogo será responder à pressão constante dos austríacos, porque se a primeira linha defensiva é arrojada, Alaba e  Baumgartlinger, os dois homens do meio-campo, também parecem ter ordem para encurtar espaços. São quem faz a cobertura aos extremos quando a bola entra nas suas costas e mesmo que por vezes sejam só dois a cobrir um espaço considerável de terreno, raramente abdicam de pressionar quem se encontra de frente para as duas últimas linhas austríacas, por vezes ainda dentro do meio-campo ofensivo. E aqui parece-me estar uma das chaves do jogo de amanhã. A construção portuguesa ainda não convenceu com os movimentos de dentro para fora do bloco dos médios no auxílio a Danilo, ficam muitas vezes de costas para a baliza adversária e podem somar perdas de bola importantes nessa zona do terreno, que se não originarem situações de golo para os austríacos podem pelo menos dificultar um jogo fluído da selecção, porque sem o adiantamento dos laterais e com os médios por vezes sobrepostos fora do bloco adversário, a Áustria pode sentir-se confortável no jogo.

A boa notícia é que apesar de algum arrojo na pressão, a linha defensiva da Áustria recua com facilidade e reage baixando aos movimentos em profundidade dos homens da frente, nomeadamente os centrais. Com Alaba e Baumgartlinger a cobrirem muito espaço a bola pode entrar nas suas costas ou na zona entre estes e os alas. É verdade que os austríacos contra a Hungria mostraram-se reactivos, ou seja, apesar do espaço que concedem quem é ultrapassado pela linha da bola recua rapidamente mas há condições para atacar com qualidade. Outro aspecto a explorar poderá ser a variação de corredor. Com os extremos adiantados na pressão, e a tendência dos dois homens do meio para bascular e pressionar haverá espaço interior do lado contrário ao da bola e este poderá ser um meio interessante para entrar no meio-campo adversário.

Ofensivamente variam entre as saídas curtas pelos centrais com ajuda dos médios e jogo directo para o avançado Janko que se disputa primeira bola em zona interior tem apoio dos extremos, enquanto que meio, Junuzovic aproxima. Os extremos variam entre ir ligeiramente dentro e permanecerem à largura, mas são os responsáveis pela característica ofensiva mais visível, (e que acaba por ser mais determinante) a grande profundidade que dão ao ataque. Não é raro ver Arnautovic e Harnik na mesma linha de Janko, bastante adiantados mesmo quando a bola ainda está recuada. Isto origina alguns passes verticais/jogo longo pelos colegas de trás que não foram especialmente eficazes contra a Hungria, até porque o jogador que recebe a primeira bola, se não for Janko, por vezes não tem o apoio devido. Ainda assim, nota para o facto de a Áustria quando tem a bola durante mais tempo pode colocar facilmente 4 jogadores à entrada da área adversária, o que retirando fluidez à circulação atrás, pode causar dificuldades à linha defensiva portuguesa se esta baixar sem o apoio dos médios.

Em zonas mais baixas, além dos centrais Alaba e Baumgartlinger tentam uma construção mais curta. Um deles pode inserir-se entre linhas à procura do passe vertical ou da referência à largura (laterais adiantam-se quando extremos vão para dentro, ainda que Fuchs tenha ensaiado entrar no espaço entre linhas com Arnautovic à largura). Se Portugal optar por baixar ligeiramente o bloco, tem na recepção de bola dos passes verticais entre linhas um bom momento de pressão, nomeadamente quando quem recebe bola são os extremos que recebem de costas e sem apoio próximo, não existe aproximação dos colegas nesse momento tornando complicada a vida do portador da bola. Pese estes momentos de alguma pausa, o jogo preferencial da Áustria parece ser colocar rapidamente os extremos de frente para a baliza adversária, através de variações de corredor. Importante médios portugueses assegurarem ocupação do meio, para que as solicitações dos extremos sejam por fora e não ultrapassem a linha média para não expor linha defensiva.

A transição defensiva austríaca também aparece como um aspecto passível de ser explorado, na minha  opinião. Com os 4 da frente muito adiantados, Alaba e Baumgartlinger têm no momento da perda especial importância (se um deles não estiver junto dos avançados). Mesmo aqui os dois do meio nem sempre abdicam de pressionar, sendo que, a linha defensiva, nomeadamente os centrais têm tendência para recuar. Com alguma preparação creio que existem condições para colocar a bola nas costas dos médios austríacos e progredir a partir daí em condições altamente favoráveis.

A selecção portuguesa é naturalmente favorita, e num jogo contra uma equipa que não deve ter grandes problemas em pressionar mais alto, é necessário controlo emocional e que os jogadores sejam mais criteriosos ao contrário do que aconteceu após o golo da Islândia na primeira jornada, para manterem a serenidade mesmo que comecem por perder algumas bolas fruto da pressão. 

terça-feira, 14 de junho de 2016

Por terras de França I

Alemanha – Primeiras Impressões

No jogo frente à Ucrânia, os alemães mantiveram a identidade que os caracteriza nos últimos anos. Domínio do jogo através da posse de bola, preferencialmente no meio-campo adversário envolvendo muita gente no ataque.
Na primeira parte a Ucrânia apareceu recuada com médios e defesas a fazerem duas linhas de 4 juntas, mas baixas começando a pressionar já bem dentro do seu meio-campo. A Alemanha respondeu com o adiantamento dos laterais, que davam largura quando equipa tinha bola, preferencialmente Kroos na meia-esquerda e Khedira na meia-direita a dirigirem jogo de frente para o bloco ucraniano com o auxílio dos centrais (especialmente Boateng). Os alas Draxler e Muller procuravam frequentemente espaços interiores, juntando-se a Ozil Goetze no meio, fazendo com que o espaço entre as duas linhas ucranianas estivesse preenchido com no mínimo sempre alemães que garantiam que a posse de bola da equipa progredisse.
A Alemanha na primeira parte, regra gera, foi bastante criteriosa quando teve bola, preferencialmente através de passe curto, alternando com bolas longas a procurar as costas da defesa. Os movimentos dos avançados fizeram com que a restante equipa ganhasse espaço para jogar, ao fazer recuar a linha defensiva ucraniana. À mobilidade dos 4 da frente, os jogadores de trás foram pacientes realizando o passe vertical que permitiu avançar no momento certo, (destaque para Kroos) ainda que Boateng tivesse revelado algum desacerto inicial na procura do extremo/lateral do lado oposto ao seu. À direita do ataque alemão o extremo esquerdo ucraniano Konoplyanka fechava o seu corredor baixando para junto da linha defensiva, ao passo que Yarmolenko do outro lado se juntava aos médios estando mais adiantado. O recuo de Konoplyanka para junto dos defesas permitiu à Alemanha mais espaço para jogar, ainda para mais sendo esse o espaço de Khedira que se adiantava mais que Kroos. Em alguns momentos existiu aglomeração nessa zona (pois Ozil e/ou Goetze juntavam-se a Muller e ao lateral Howedes) com a Ucrânia a fechar bem e os alemães procuraram variar o jogo através de passe longo para o lado contrário para Hector ou Draxler que conferiam largura (com Yarmolenko muito por dentro) havia espaço para jogar.
Pese embora o mérito na forma como entraram  frequentemente no bloco ucraniano, a Alemanha revelou dificuldades em ultrapassar a linha defensiva adversária que se apresentou muito coordenada, raramente permitindo que a bola entrasse suas costas, obrigando os alemães a procurar o jogo exterior através de cruzamentos no último terço ainda que com boa presença em zona de finalização.
Na segunda parte, a Ucrânia entrou com os médios a pressionarem mais à frente. Como a linha defensiva se manteve conservadora a Alemanha jogou entre linhas com maior facilidade, ainda que os problemas no último terço se tenham mantido, mesmo em situação de contra-ataque, mais frequente dada a desvantagem ucraniana no marcado.
Defensivamente, e ainda que seja preciso uma melhor análise, deu para ver que nem sempre a equipa reage colectivamente à pressão exercida por um colega, o que permite ao adversário jogar, bem como o tempo exagerado que por vezes os médios demoram a juntar à linha defensiva.

Destaque individual – Dimitri Payet

Primeira grande figura do Euro-2016 e destaque inteiramente merecido não só pelo golo que valeu a vitória mas pela fantástica exibição. Não desiludiu e não só pela indiscutível qualidade técnica e de passe. Na primeira parte começou na ala esquerda mas cedo procurou espaço interior e até foi para fora do bloco adversário para definir jogo. Sempre criterioso com a bola nos pés, a procurar envolvimento e tabelas com os colegas, muito bem a definir o timming para soltar a bola. Marcou o ritmo de jogo da França, sabendo quando temporizar o ataque por forma a ter mais e melhor apoio ou progredindo através da condução. Boa inserção no espaço entre linhas como é prova o lance do segundo golo. Quando após as substituições passou a jogar definitivamente no meio foi evidente que sabia quando devia afastar ou aproximar do portador de bola para lhe dar o melhor apoio

(Texto originalmente publicado no Jornal Único)

França vs Roménia - O jogo de Pintilii




Pintilii, jogador romeno do Steaua de Bucareste, foi amplamente elogiado na comunicação social pela exibição realizada frente à França como é exemplo esta crónica publicada no Expresso. "Secou sozinho o meio-campo da França (...) Apagou Pogba" foram algumas das palavras utilizadas.

A história é interessante de ser contada: jogador relativamente desconhecido causa dificuldades aos consagrados com base, não no talento ou especial capacidade técnica, mas antes pelo esforço e dedicação que emprega no jogo. Ora, acontece que  neste caso, isso é  no mínimo bastante discutível.

Apesar de ter disputado o jogo até ao fim, a Roménia revelou várias dificuldades colectivas a defender e portanto o contexto nunca seria o melhor, mas Pintilii está longe de poder ser ilibado de responsabilidades. Elemento do duplo pivô romeno descaído para a direita, pese embora a veemência com que disputou alguns duelos, revelou-se facilmente ultrapassável. Na primeira parte, foi essencialmente pelo seu lado que a França chegou mais vezes ao último terço, pois era atraído e saia à pressão em terrenos adiantados, mesmo que os colegas não se encontrassem disponíveis para o acompanhar (nem diga-se, fazer a respectiva cobertura), por outro lado, não me pareceu especialmente intenso, pois quando teve de ajustar para impedir tabela, ou reagir quando a bola se encontrava no corredor lateral para impedir que entrasse no meio, deixou a desejar. Tudo isto fez com que os franceses conseguissem colocar o jogo várias vezes nas costas de Pintilli (como é possível ver no video) em boas condições de atacar a linha defensiva que por esta altura já se encontrava exposta.

Creio que as análises elogiosas a Pintilii são enviesadas pelo facto de o jogador romeno ter demonstrado disponibilidade para correr/pressionar e pelas naturais baixas expectativas sobre a sua exibição. A questão é que essa pressão se mostrou desajustada no contexto colectivo (linha defensiva conservadora, por exemplo) e mesmo em outras situações o que faltou foi somente saber antecipar o contexto e coloca-se entre a bola e a baliza para impedir a progressão francesa, que se fez muito no aproveitamento do espaço nas costas de Pintilii 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Braga vs Porto - A diferença entre estar e aparecer




No passado domingo foram notórias as dificuldades do Porto em criar situações de perigo frente ao Braga na primeira parte no Jamor e principalmente em chegar ao último terço bracarense. Pese embora a interessante a forma como a equipa de Paulo Fonseca se apresentou defensivamente, creio que existem aspectos no ataque portista que merecem ser revistos por dificultarem a fluidez  na circulação de bola.

A principal questão prende-se com o posicionamento dos 4 jogadores da frente, Varela e Brahimi nas alas, Herrera e André Silva no meio. Desde fases precoces da construção, quando a bola se encontrava em zonas baixas, os atacantes procuravam zonas adiantadas. Com a bola nos centrais, ou nos dois médios (Sérgio Oliveira e Danilo) que dirigiam o jogo atrás, o Porto frequentemente tinha entre linhas além de Herrera e André Silva um dos alas, sendo que, o outro podia assegurar largura ainda que estivesse na mesma linha de profundidade (pontualmente também recuaram ligeiramente por dentro, mais Varela).

Movimentos a ameaçar a profundidade dos homens da frente, obrigando linha defensiva contrária a baixar, e  ocupação do espaço entre linhas são formas interessantes para tentar ultrapassar qualquer adversário, mas o que me parece questionável é o facto de os jogadores do Porto permanentemente estarem nesse espaço ao invés de aparecer. Como é possível ver na imagem abaixo, a bola está em Maxi e estão 3 jogadores portistas entre linhas com Brahimi do outro lado à largura mas na mesma linha de profundidade. Estar/ter presença constante entre linhas pode ser uma forma de atrair adversários, mas neste caso creio que colocou em causa a fluidez da circulação de bola



Os laterais do Porto num primeiro momento de construção, à entrada do meio-campo adversário onde o Braga começava a aparecer, os laterais do Porto não se projectavam muito. À esquerda com Brahimi essencialmente mais à largura, Layun ainda ensaiou inserir-se por dentro, deixando o argelino mais aberto. Sérgio Oliveira e Danilo inicialmente também se encontravam próximos dos centrais, em espaço interior ou no corredor central, ora com os colegas da frente entre linhas é natural que, como é possível ver na imagem, não existisse ninguém na zona entre os avançados e médios do Braga (foi Varela quem pontualmente por lá apareceu), restando neste caso a Maxi jogar nos centrais. Esta fase do jogo acabou por ser relativamente confortável para a linha média do Braga, pois sem jogadores do Porto à sua frente não teve de lidar com dúvida de posicionamento que pudesse surgir. 

Como é visível por esta imagem o adiantamento dos jogadores da frente deu poucas opções a quem tinha a bola nos corredores laterais e pretendia jogar por dentro. Na imagem Maxi através de passe, mas o mesmo foi visível quando Layun e Brahimi tentaram conduzir em direcção ao meio, vindo de fora. Com os da frente colados à linha defensiva, a linha média Bracarense quase só tinha de se preocupar com o homem da bola.

Neste contexto não seria um jogo fácil para Danilo e Sérgio Oliveira, mas ainda assim creio que poderiam ter feito melhor. A sua abrangência de espaços era grande e por isso mesmo teria sido importante após o auxílio em zonas mais baixas da construção que aparecessem próximos dos da frente (na imagem Sérgio Oliveira é lento a dar apoio a Maxi). Não foram especialmente intensos no sentido de percepcionarem o espaço livre já dentro do meio-campo do Braga, constituindo-se raramente como opções válidas para dar continuidade à circulação por trás.

Nota final para o critério com bola, não só de Danilo e Sérgio Oliveira como também da linha defensiva. É verdade que o Porto num primeiro momento de cada jogada era paciente e procurava circular à largura (ainda que por fora e em zonas baixas) mas não conseguindo logo aí progredir, somaram algumas precipitações forçando passes e situações onde a probabilidade de sucesso era questionável através de passes longos e aéreos (especialmente Sérgio Oliveira que assumiu algum protagonismo nesta fase nem sempre da melhor forma). Sendo que, obviamente o peso do jogo e a desvantagem também podem ajudar a explicar esta fase na partida do Porto

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Intensidade - O caso de William Carvalho




O lance que trago em video termina com o 3º golo do Sporting em Braga no passado fim-de-semana e é relativamente fácil de explicar. Luiz Carlos tenta mudança de corredor com passe à largura para lateral esquerdo que se inseria simultaneamente. João Mário acompanha e intercepta bola, imediatamente William Carvalho percebe o espaço entre linhas na transição defensiva do Braga ocupando esse espaço recebendo bola e depois procura Slimani nas costas da linha defensiva estando o desequilíbrio criado.

William Carvalho é tido como um jogador "lento" e "pouco intenso", que "joga parado". Daí a necessidade de definir o que é, ou pode ser, intensidade em futebol. No caso concreto, quando João Mário recupera a bola, William é o primeiro a perceber o espaço vazio e no timming correcto desloca-se dando opção ao colega para passe vertical. A rapidez com que percepcionou o lance permitiu-lhe não só ser o primeiro a chegar como ter mais espaço e tempo para definir a jogada (nota para a preocupação em receber bola já de frente para a baliza bracarense).

Certamente existem jogadores velozes e "intensos" no sentido tradicional do termo que ganham vantagem por isso. Mas, no meu entendimento, será um erro menosprezar a intensidade que se manifesta na percepção do espaço a ocupar, principalmente quem o faz no timming adequado, porque para este tipo de jogador mais que a velocidade de deslocamento interessa o momento e as condições em que recebem a bola, sendo nestas circunstâncias que ganham vantagem.

William Carvalho, apesar dos altos e baixos deste ano, parece-me estar neste lote de jogadores, e se a isto juntarmos o critério que revela quando tem bola nomeadamente a variabilidade  de linhas de passe que procura com a melhoria em transição defensiva notória nesta última época, é justo dizer-se que estamos perante um pivô de topo do futebol europeu

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Benfica vs Bayern Munique - As mudanças de Guardiola




Dadas as dificuldades na primeira mão, seria expectável que o treinador espanhol mudasse qualquer coisa para o jogo da Luz. A entrada de Xabi Alonso abdicando de Lewandowski anunciou mexidas na disposição dos alemães.

Para contrariar a pressão do Benfica, o Bayern com bola apresentou-se com uma linha de 4 defesas, onde os laterais Alaba e Lahm não se projectavam muito, Alonso como pivô e, ao contrário do que sucedeu na primeira mão, Thiago e Vidal constantemente entre linhas com Muller, avançado, o mais profundo possível, sendo que, tal como em Munique eram Douglas Costa e Ribery que asseguravam largura.

Os laterais baixos fizeram com que os extremos do Benfica, Sálvio e Carcela, se adiantassem na pressão, por vezes já bem dentro do meio-campo contrário. Ora, com Thiago e Vidal entrelinhas e mais adiantados, a equipa do Benfica por vezes teve dificuldade em permanecer compacta, com Sanches e Fejsa na dúvida se haveriam de assegurar cobertura aos extremos ou permanecer baixos e mais perto da linha defensiva com os médios bávaros. 

Preocupação constante do Bayern em ter jogadores a ameaçar profundidade, nomeadamente Vidal a juntar-se várias vezes a Muller em movimentos verticais. Nem sempre, aliás nem foi predominante, procuravam o passe para as costas da linha defensiva mas este movimento tinha como objectivo fazer baixar os defesas do Benfica. Nota para o facto, de em alternativa também Lahm e Alaba aparecem por dentro no espaço entre linhas, fazendo a equipa o respectivo ajuste, nomeadamente Vidal e Thiago, que nesses momentos podiam ficar como apoios mais recuados

Ainda que a disposição em campo fosse diferente quando em comparação com a primeira mão, o objectivo da circulação de bola do Bayern permaneceu a mesma, dar condições favoráveis aos extremos para progredirem com bola. Na minha opinião, a diferença residiu além da dúvida criada aos dois médios encarnados e à constante profundidade, também na forma como principalmente do lado direito alemão o posicionamento alemão permitiu a Douglas Costa receber com espaço. Com o decorrer da primeira parte, Lahm assumiu posições cada vez mais interiores tentando fixar Carcela, e por outro lado pareceu existir preocupação de algum jogador do Bayern (frequentemente Muller) ocupar espaço interior direito tendo como objectivo fixar Eliseu e retardar naturalmente a sua basculação para chegar até Douglas que dava largura. Portanto, com esta disposição, o brasileiro quando recebia passe mais longo de Alonso ou Kimmich tinha espaço para avançar e também é por aqui que se explica o facto de Bayern ter chegado mais vezes ao último terço. Nota para o facto de com Douglas Costa à largura, várias vezes Lahm apareceu na ruptura em espaço interior, sendo o lance do golo o melhor exemplo, com o Benfica a ter dificuldade nas coberturas quando isto acontecia. À esquerda, Alaba essencialmente como apoio recuado junto dos centrais, mas também com capacidade para se adiantar no espaço entre linhas e a arrastar marcações.

Naturalmente o Benfica teve dificuldades para controlar a estratégia adversária. A procura de profundidade fez baixar a linha defensiva várias vezes e a equipa nem sempre foi compacta neste aspecto. Tendo o Bayern maior presença entre linhas e em zonas mais adiantadas a baralhar as marcações, o Benfica não evitou que a bola fosse de fora para o meio por dentro do bloco adversário (Sanches e Fejsa na primeira mão estiveram muito bem nas coberturas aos extremos, mas com adiantamento de Vidal e Thiago na Luz e uma ou outra falha de concentração as coisas foram diferentes). Guardiola na conferência de imprensa referiu que gostou bastante do ajustamento a 4 da linha defensiva. De facto, com o Bayern a chegar várias vezes ao último terço em situação de cruzamento a resposta dos defesas encarnados (colectiva e individual) é digna de registo

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Bayern Munique vs Benfica - Defender no meio-campo defensivo

Na antevisão do jogo da primeira mão, Guardiola disse sobre o Benfica "defendem 20 metros longe da sua baliza". Tal como previsto em vários momentos da partida na Alemanha, os encarnados apresentaram-se defensivamente em 4x4x2 com o bloco médio e linhas muito compactas.

No final da partida, Guardiola voltou a falar sobre o Benfica "é uma equipa que não deixa espaço entre linhas, é complicado fazer golos". Talvez por isso, o Bayern tentou fazer circular a bola à largura, procurando constantemente rápidas variações de corredor, principalmente na primeira parte. A forma como os jogadores se distribuíram em campo, apesar de não ser novidade nos alemães, não deixa de trazer inovação ao jogo. Com o Benfica em bloco médio, o Bayern respondeu com Alaba e Kimmich (centrais) e Bernat lateral-esquerdo inicialmente pouco subido e na mesma linha dos centrais, com 3 jogadores permanentemente fora do bloco encarnado, Thiago mais no espaço interior esquerdo, Vidal no meio e Lahm que apesar de ser lateral juntava-se aos colegas em espaço interior à direita. Ribery e Douglas Costa eram os extremos que asseguravam largura com Muller e Lewandowski no meio entre as duas linhas encarnadas. A disposição pode ser vista na imagem seguinte

Partindo da premissa enunciada por Guardiola no parágrafo anterior, o Bayern na primeira parte procurou circular a bola com alguma paciência em zonas baixas, através da linha defensiva e dos 3 médios, tendo como objectivo criar situações favoráveis de desequilíbrio para os extremos. Nestas circunstâncias raramente jogou entre linhas e mesmo aí, dada a falta de inserção dos médios Lewandowski e Muller acabaram por procurar colegas à largura. Com efeito, nos primeiros 45 minutos Vidal e Thiago só se adiantaram quando a bola entrava no último terço à largura (normalmente em Douglas Costa ou Ribery) e a possibilidade de cruzamento era elevada (referência óbvia para o lance do primeiro golo.) Pontualmente Bernat também se adiantou auxiliando Douglas Costa.

O Benfica manteve o bloco médio tendo como principal prioridade evitar o tal jogo entre linhas, colocou muita gente no corredor central. Sabendo que o Bayern iria mudar de corredor através de passes longos para os extremos seria importante as ajudas aos laterais para evitar situações de 1x1. Pizzi ou Gaitan seriam as prioridades no auxílio a André Almeida e Eliseu mas quando estes não estiveram presentes, Fejsa e Renato Sanches deram uma boa resposta basculando e assegurando apoio. Se à direita Pizzi esteve quase sempre próximo de André Almeida, à esquerda Gaitan em alguns lances adiantou-se pois passou a ter como referência o posicionamento de Lahm e quando a bola chegava a Douglas Costa o argentino encontrava-se longe e incapaz de auxiliar Eliseu. A linha defensiva do Benfica teve naturalmente uma postura conservadora. Bom controlo da profundidade, e à mínima ameaça recuavam, nomeadamente quando a bola entrava em Ribery ou Douglas Costa, tentando dar tempo aos restantes colegas para se juntarem. Centrais só saiam do meio em última necessidade, deixando as coberturas aos laterais para outros.

A segunda parte começou com uma ligeira mexida no Bayern que nos primeiros minutos colocou algumas dificuldades ao Benfica. Thiago e Lahm começaram a inserir-se entre linhas (à vez) numa fase mais precoce da construção, o que criou dúvidas à linha média do Benfica fazendo com que recuassem mais cedo. Nesta fase, o Bayern procurou menos as variações de corredor para extremo do lado oposto, e mais lances de envolvimento ainda que sempre a fazer uso da largura. Os primeiros 10 minutos da segunda parte foi talvez o período de maior domínio alemão, ao obrigar a linha média e defensiva do Benfica a recuar devido à inserção dos médios, o Bayern dificultou a transição ofensiva encarnada.

Nos últimos 20 minutos, e depois de um período de maior equilíbrio, o Bayern teve maior espaço, talvez pelo natural desgaste que assolou o Benfica. Com o jogo mais partido, tentando os encarnados manter mais tempo a bola, e ao contrário do que aconteceu nos primeiros 70 minutos, o Bayern conseguiu verticalizar o jogo logo após a recuperação de bola. Novamente importância da largura concedida pelos extremos (até porque serviram de referência) e lances que acabaram em cruzamento. Nesta fase o Benfica defendeu várias vezes somente com 5/6 jogadores, ainda que quase sempre muito próximos uns dos outros à largura. Linha defensiva manteve naturalmente o comportamento defensivo conservador recuando à medida que os alemães avançavam.

Nota final para fazer referência à pressão alta do Benfica em algumas saídas do Bayern. Não é o objectivo deste post analisar esse momento do jogo mas é possível dizer que foi por aí que os encarnados conseguiram uma das suas melhores oportunidades de golo (remate de Jonas para defesa de Neur) mas também foi depois de uma situação de pressão no meio-campo adversário que o Bayern chegou ao golo