quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Manchester United - Gestão da profundidade ofensiva e proximidade ao portador da bola II

Momento inicial do lance que daria o segundo golo do Norwich em Old Trafford. Bola no central do Manchester United, laterais pouco projectados em relação aos centrais com Carrick à frente da defesa e Mata entre linhas. Quatro jogadores da frente (Rooney, Fellaini e extremos) todos alinhados em profundidade e distantes à largura.


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Seguimento do lance com movimento típico do United onde alguém da frente recua (no caso Rooney) para o espaço deixado livre por jogador entre linhas que se afasta (Mata). Acontece que 3 jogadores estão estáticos/profundos na frente, o lateral do lado da bola não se adiantou e só Carrick pode vagamente ser solução, já que, mais ninguém reagiu ao passe para apoiar Rooney que acaba a receber bola de costas para baliza adversário e naturalmente pressionado, sem apoio próximo perde bola originando o contra-ataque do Norwich. 


Neste caso o adiantamento de 4 jogadores em zona precoce de construção mais a falta de apoio a quem recebe bola no corredor central e entre linhas não só dificultou a circulação de bola, como naturalmente expôs a equipa no momento da perda fazendo com que o Norwich conseguisse contra-atacar pelo corredor central. A questão não passa tanto pela disposição inicial (que até tem a vantagem de empurrar boa parte dos adversários para perto da sua área) mas sim o que é feito a partir daí. Somente com um jogador a recuar este fica numa posição desvantajosa e não tem alternativa se não jogar com os de trás, sendo que, os 3 da frente ficam fora do lance. 

Snapshot 165 Snapshot 166

Nota: As imagens são retiradas deste video, onde Jamie Carragher e Henry analisam o momento do Manchester United com o francês a explicar alguns conceitos de Guardiola. Vale a pena ver

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Bayer Leverkusen - Gestão da profundidade ofensiva e proximidade ao portador da bola




O Bayer Leverkusen do ponto de vista ofensivo é das equipas mais interessantes de seguir no futebol actual pela originalidade, e variabilidade, das ideias apresentadas. 

Contra o Borussia Monchegladbach, e aqui à que ter em conta o desgaste de uma equipa que vinha de jogos na mesma semana contra Bayern de Munique e Manchester City, o Leverkusen apresentou Kiessling e Chicharito na frente (algo pouco recorrente), com dois médios alas (Bellarabi e Çalhanoglu) e dois médios centro (Kampler e Kramer).

A diferença começa logo na saída a 3. Kampler junta-se à linha de centrais, mas recebe bola no corredor esquerdo, próximo da linha lateral com natural projecção de Wendell, também à largura. A estes junta-se Çalhanoglu, um dos avançados e não raras vezes Bellarabi, o que fazia com que facilmente 4/5 jogadores ficassem muito próximos à largura. Esta é uma das características do Bayer Leverkusen, tenta colocar sempre muita gente próxima do portador da bola. À esquerda mostraram algumas dificuldades em dar fluidez à circulação da bola, quando não procuraram corredor central, porque apesar dos constantes movimentos à profundidade por parte  de quem não tem bola, que permitia espaço para jogar e solução ao portador mais à frente, quem recebia bola em zonas no último terço, acabava por fazê-lo de frente para a linha lateral em situação muito complicada. Importante o posicionamento de Hilbert, lateral direito. Muito adiantado e muito por dentro (ainda que fora do bloco adversário) era principalmente a si que o jogo ia parar se o lado esquerdo estivesse fechado, tal como a Kramer. Ainda que nestas ocasiões o corredor central do Leverkusen, por motivos óbvios, não estivesse especialmente povoado

Quando o jogo passava para o corredor central/espaço interior o Bayer Leverkusen parecia melhorar. Kampler à esquerda quando procurou o meio conseguiu fazer com que o Leverkusen jogasse entre linhas. É que se a equipa tende a ficar próxima no corredor lateral, isso também acontece no corredor central, sendo até mais visível quando a opção dos de trás é jogar longo. Esta proximidade permite jogar dentro do bloco adversário. No jogo longo, um dos avançados disputava a bola mas contava com o apoio dos dois médios ala muito por dentro nestas situações, fazendo com que ganhassem a 2ª bola, a largura era dada posteriormente pelos laterais que subiam.

A mobilidade dos quatro da frente foi uma das marcas mais importantes neste jogo. O Leverkusen consegue jogar porque à proximidade constante a quem tem a bola, há em variados momentos quem ameace profundidade e ruptura nas costas da defesa adversária, o que naturalmente faz com que a linha de 3 do Borussia Momchegladbach esteja sempre em dúvida. Houve igualmente forte reacção ao jogo entre linhas, assim que a bola entrava no jogador da frente a restante alguém procurava aproximar para dar linha de passe (ver a combinação entre Kiessling e Chicharito no segundo golo), desta forma aqui a circulação de bola não perdeu fluidez entre linhas porque os apoios frontais estiveram quase sempre assegurados.

Nota final para a exibição de Chicharito. Alternou a profundidade com momentos em que baixou bastante para jogar ente linhas e não raras vezes jogou de frente para a linha defensiva adversária (4º golo), bem a decidir foi muito importante na variabilidade que a equipa apresentou

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Os golos do Barcelona no Barnabéu - Gestão do jogo entre linhas




No último post havia alertado para algumas questões defensivas do Real Madrid que mereciam reparo e creio ser justo dizer que o Barcelona, no último sábado, conseguiu expor as fragilidades madrilenas sem bola.

Ainda assim creio que existe mérito na forma como o Barcelona desconstruiu de forma permanente a oposição que encontrou. Soube explorar a tendência com os que médios madrilenos no corredor central têm para ser atraídos ao portador da bola iniciando uma pressão que não é coordenada com a restante equipa, não admira por isso que Busquets esteja nos quatro golos e ao longo do jogo tenha tido espaço e tempo para dirigir jogo.

Na minha opinião, um dos aspectos que pode receber maiores elogios no jogo do Barcelona foi a forma como a equipa fez uso do espaço entre linhas (potenciado pelos jogadores da frente que, à vez, forçavam a linha defensiva do Real Madrid a baixar). Desde logo, a forma como quem se encontrava fora do bloco adversário teve mais tempo para dirigir jogo dada as constantes penetrações da linha média que arrastavam adversários, depois o timming correcto de quem entrava nesse espaço e o critério de quem tinha bola (Iniesta no 2º e 3º golo, Neymar no 3º), ora quando de costas a procurar apoio frontal, ora a procurar apoio/profundidade. E aqui chegamos a um ponto que considero essencial, a dinâmica quando a bola entrava dentro do bloco adversário, ao contrário do que por vezes acontece em várias equipas, o Barcelona conseguiu quer através de movimentos à profundidade, quer por inserções de trás para a frente (tendo em conta a linha média adversária) assegurar apoio ao portador da bola e assim não perder fluidez na circulação através de constante reacção ao seguimento que a bola tinha, com gestão interessante entre afastar e aproximar de quem tinha bola.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Real Madrid a defender em Sevilha. Coerência, responsabilidade colectiva e individual




É verdade que durante boa parte do tempo, nomeadamente na 1ª parte, o Real Madrid conseguiu remeter o Sevilha ao seu meio-campo, no entanto, raramente pareceu ter o jogo controlado sentindo-se alguma vulnerabilidade defensiva. 

Desde logo mérito para o Sevilha com uma dinâmica muito interessante a explorar muito bem aspectos onde acabou por retirar vantagem, nomeadamente o jogo pelos corredores laterais e a constante procura de profundidade pelos jogadores da frente que acabou por empurrar (além da natural disposição) a linha defensiva do Real para terrenos mais baixos, aumentando o espaço para jogar.

O Real Madrid sem bola normalmente deixa Ronaldo e Bale mais adiantados (mantém-se altos na 1ª fase de construção adversária, ainda que pouco dados a pressionar e sem fechar espaço interior/recuar, quando eram ultrapassados), mas tenta sempre ter pressão na bola. Além de defender com 8, a linha defensiva baixava muito, ficando os 4 do meio-campo com muito espaço de acção. Quando alguém saia na pressão, não tinha a devida cobertura sendo ultrapassado com relativa facilidade, sendo que, não se mostraram especialmente fortes a recuperar e baixar quando tal acontecia, e fez com que o Real Madrid defendesse com poucos próximo da sua grande área.

É relativamente fácil apontar questões a rever, nomeadamente a descoordenação de Kroos e Casemiro, enquanto o alemão procurava pressionar à frente, o brasileiro permanecia recuado arrastado por adversários ou partindo de posição + baixa junto da linha defensiva, faltando perceber o que há de colectivo e de opção individual no que se passou em Sevilha. Não está em causa a opção por pressionar mais alto, ou mais baixo, mas sim a incoerência nas acções dos jogadores. Kroos sai a pressionar, e restante equipa permanece estática e baixa, origina espaço central desprotegido e espaço entre linhas. 

Referência para a forma como o Sevilha ganhou vantagem nos corredores laterais. Quando os alas madrilenos saiam à pressão em zonas mais altas facilmente eram ultrapassados e uma vez que a cobertura nem sempre existia (médio atraído à frente e lateral demasiado baixo), foi com relativa facilidade que os laterais sevilhanos se adiantaram para criarem superioridade numérica à esquerda e à direita. Aqui Casemiro basculava no apoio ao lateral mas as circunstâncias já eram desfavoráveis aos madrilenos que nunca pareceram estar confortáveis com este tipo de jogo

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A 1ª parte do PSG no Barnabéu




Digna de registo a primeira parte do PSG no jogo de terça-feira frente ao Real Madrid. Quer pela quantidade de vezes que ameaçaram a baliza de Navas, quer pela escassa quantidade de oportunidades que permitiram aos madrilenos neste período.

Com pretensão de ter bola, os franceses colocavam os 3 médios (Motta pivô, Verratti e depois Rabiot à esquerda e Matuidi à direita) inicialmente fora do bloco adversário, alternando na proximidade à largura. Di Maria, ala direito, permanentemente por dentro com possibilidade de Cavani também se juntar neste espaço como apoio frontal, bem como Ibrahimovic. Alias, nota para a variabilidade à esquerda, com Cavani e Maxwell a alternarem na largura, com o brasileiro a adiantar-se assim que o colega ia para dentro

Destaque natural para Matuidi. Com 3 médios a começarem fora do bloco, onde ocasionalmente se juntava Cavani, seria fácil ao PSG ficar sem gente à frente para dar seguimento aos ataques acabando quem recebesse entre linhas por ficar em desvantagem, daí a importância dos movimentos do francês, que esteve muito bem nos movimentos de inserção de trás para a frente com bom timming juntando-se a Di Maria dentro do bloco adversário num primeiro momento, e depois ao procurar a profundidade em espaço interior no último terço o que fez a linha defensiva madrilena baixar e permitiu a colegas receberem a bola por dentro de frente para a linha defensiva adversária.

É verdade que a vida do PSG ficou facilitada porque o Real Madrid defendia com duas linhas de 4, sendo que, os dois da frente não baixavam muito, o que permitia aos médios franceses dirigirem o jogo com mais espaço, mas não deixa de ser relevante o critério na escolha do portador da bola bem como a mobilidade dos restantes companheiros, se alguém recebia entre linhas sem apoio procurava os apoios recuados, por exemplo. Apesar de raramente se expor nas suas costas, foi complicado para o Real controlar esta dinâmica, nomeadamente com a presença entre linhas e a liberdade de Di Maria que tinha sempre gente com quem combinar. Aliás um dos pontos mais interessantes da exibição do PSG passa mesmo pela constante mobilidade e capacidade de recuo dos da frente não interferir nalguma possível falta de movimentos à profundidade que poderiam condicionar a fluidez da circulação de bola

Por fim, o PSG também causou dificuldades em transição, fazendo uso de Ibrahimovic como apoio frontal óptima referência (muito bom no timming de "sair" dos defesas adversários para ocupar o espaço livre).  Mesmo nestas circunstâncias preocupação com aparecer alguém à profundidade que acabe por criar espaço para jogar. Nota para a facilidade com que colocam rapidamente vários jogadores na área madrilena em condições de finalizar

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Bayern Munique - Dinâmica ofensiva, o jogo de Alaba




Guardiola elogiou a primeira parte do Bayern frente ao Wolfsburg e não é para menos. Os bávaros foram completamente dominadores e chegaram ao intervalo a vencer por 0-3. 
Enfoque mais uma vez para a dinâmica ofensiva pensada pelo treinador espanhol, tendo como principal atractivo os movimentos no corredor esquerdo, nomeadamente o entendimento entre Alaba (defesa esquerdo) e Conan (extremo esquerdo) que contaram ainda, por vezes, com o apoio próximo de Lewandowski. Todos os golos, mais alguns lances de desequilíbrio tiveram como premissa este ponto, até porque o Wolfsburg não se conseguiu adaptar.

O lateral austríaco começou os ataques num posicionamento normal, à largura e até relativamente perto dos centrais, à medida que os de trás circulavam bola, tinha tendência para se inserir entre linhas num espaço mais adiantado, entre o bloco adversário, sendo  Conan a assegurar largura. No espaço deixado livre pelo vulgar adiantamento de Alaba, Thiago dirigia o jogo no espaço interior, fora do bloco adversário. Por outro lado, quando o jogo se encontrava na direita e chegava à esquerda com um passe para Conan, Alaba inseria-se de trás para a frente, quer em espaço interior (mais frequente) quer em olverlap por fora a Conan, tal como no lance do terceiro golo. Com menor assiduidade, Conan procurou espaço interior e Alaba ficou a dar largura.

Ao contrário do que foi amplamente divulgado nas redes sociais, como é possível ver neste artigo do bleacher report, não creio que tenhamos assistido ao regresso do famoso 2x3x5. Desde logo, porque Lahm raramente se adiantou para espaço interior e se juntou a Alonso e Thiago, ficando esse espaço para Douglas Costa. E depois porque Alaba começou o jogo por fora e só no decorrer dos lances e conforme a existência de espaço livre se inseriu dentro do bloco adversário, Desta vez, mais do que uma alteração de estrutura é na dinâmica que deve estar o foco da análise, na minha opinião.




sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Construção, gestão entre linhas e reacção ao passe - o caso da Fiorentina


Basta ver como a Fiorentina de Paulo Sousa, actual 1ª classificada da Serie A, se dispõe em campo para perceber que a intenção do treinador português passa por ter a bola a maior parte do tempo, de preferência no meio-campo adversário com valorização do corredor central.

A ideia é interessante. 3 defesas mais duplo pivô a dirigir jogo por trás, fora do bloco adversário, Alonso e Kuba asseguram a largura, Valero e Bernardeschi entre linhas no apoio ao avançado Kalinic.

A fluidez da circulação da bola é colocada em causa, essencialmente quando entram dentro do bloco adversário (e o jogo em análise é o do Nápoles que apesar de pressionar alto com qualidade deixa algum espaço entre sectores). Quando Valero ou Bernardeschi recebem nesse espaço (mais vezes o espanhol) não têm apoio próximo. Se um recebe entre linhas, os outros dois colegas que ocupam essa zona encontram-se distantes à largura, não sendo opção, o duplo pivô também não reage, permanecendo demasiado longe e marcado para ser opção por trás. Tal como é possível ver no video o jogador a receber nessas condições foi pressionado e a Fiorentina somou perdas de bola nestas circunstâncias, até porque muitas vezes a única solução eram Kuba ou Alonso à largura

A excepção acaba por ser o golo quando Valero recebe no meio do bloco adversário, mas tem o apoio próximo de Ilicic (entretanto entrado para o lugar de Bernardeschi) e consegue dar seguimento à jogada até à finalização de Kalinic.

Referência também para a forma como a Fiorentina atacava no último terço, com o duplo pivô com bola os 3 da frente encontravam-se permanentemente encostados à linha defensiva adversária, o que mais uma vez, fazia com que a procura de colega para dar seguimento ao lance fosse feita para quem estava à largura.

Não retirando o mérito à equipa de Paulo Sousa, penso que estes aspectos podem ser revistos num futuro próximo, nomeadamente aproximar e fazer com que os jogadores entre linhas joguem entre si. Quando a bola entrou em Valero, Kalinic e Bernardeschi permaneceram estáticos, não reagindo ao jogo, tal como Badelj e Vecino. Outra opção pode passar pela inserção de trás para a frente, sem bola, de um dos jogadores do duplo pivô com maior regularidade

(Errata: no video, existe uma troca de nome. Onde se lê Veccio, o correcto seria Vecino)