quinta-feira, 24 de abril de 2014

Liverpool vs Manchester City - Como Atacaram As Duas Equipas

(Nota: Fugindo do tema sobre o qual habitualmente escrevo no blog é impossível não referir a homenagem prestada às 96 pessoas que faleceram na tragédia de Hillsborough. Na semana em que passaram 25 anos, todos os jogos ingleses começaram 7 minutos mais tarde que o habitual sendo o ambiente que antecedeu o inicio da partida em Anfield bastante emotivo, tendo o Manchester City participado, quer institucionalmente quer através dos seus adeptos,  na homenagem prestada pelo Liverpool, exemplo seguido por bastantes clubes ingleses. Com tudo o que de simbólico significou este episódio no futebol inglês, é comovente a solidariedade unânime na celebração da efeméride, provando que a memória colectiva é parte integrante da história de um povo)




No Liverpool nota para a primeira fase de construção, com laterais muito adiantados, Gerrard a recuar para a linha dos centrais que davam largura. Coutinho e Henderson sempre próximos no apoio aos laterais, ainda que Sterling e Sturrigde também pontualmente assegurassem linha de passe interior quando a bola estava numa das alas. Mas o destaque vai para a forma como o Liverpool circulou a bola no meio-campo contrário. Os 3 da frente (Sterling, Sturridge e Suarez) quase sempre em zonas centrais garantiam presença entre linhas. Com uma circulação de bola paciente até entrar entre linhas, o Liverpool conseguiu entrar nesse espaço com Sterling recuado e a conseguir conduzir bola mesmo no corredor central, importante Suarez como apoio (recebeu bola várias vezes de frente para bloco adversário) recuado, e Sturridge a forçar profundidade no lado contrário ao da bola. 

Tendo o Liverpool conseguido com facilidade entrar no espaço entre linhas, foi mais complicada a definição no último terço. Mais uma vez a capacidade de defender com poucos próximo da sua baliza do Manchester City foi decisiva. Várias vezes os Sturridge, Sterling e Suarez apareceram no meio com bola controlada e aparente espaço para progredir sem, no entanto, conseguirem retirar de facto proveito da situação. Desde logo, a ausência de largura, com os três jogadores no corredor central não havia quem causasse duvida no posicionamento defensivo adversário. Por outro lado, a ausência de inserção dos dois médios (Henderson e Coutinho) que ao não se adiantarem deixavam os colegas em situação desvantajosa (ainda que o Liverpool permanecesse equilibrado quando perdia bola). Nota para alguma falta de critério do homem com bola, nomeadamente Sterling, que preferiu quase sempre a progressão quando existiam poucas condições e o mais sensato seria procurar jogar atrás.



O Manchester City demorou a impor-se no meio-campo adversário (a espaços na primeira parte, mais frequente na segunda parte em desvantagem). No entanto quando o fez, chegou com frequência ao último terço adversário. Os citizens envolveram sempre muita gente no ataque (o que também acabou por permitir alguns contra-ataques), com especial destaque para Fernandinho que após a saída de Touré se adiantou com bastante frequência. O City aproveitou a falta de cobertura nas alas por parte do Liverpool e a partir daí entrou com facilidade no espaço entre linhas.

O Manchester City variou constantemente o corredor de jogo, situação facilitada pela pouca presença da linha média do Liverpool. No entanto, foram verdadeiramente perigosos quando após variação, ao lateral e extremo se juntou um médio para aproveitar o espaço deixado livre (situação do segundo golo). Nota final para o ataque a zonas de finalização, onde o City soube explorar o facto de a linha defensiva do Liverpool baixar constantemente existindo espaço à sua frente para finalizar. 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Chelsea vs PSG II - A Construção do Chelsea


Era uma das grandes curiosidades para este jogo, saber como iria abordar ofensivamente o Chelsea a partida, tendo em conta que teria de recuperar uma desvantagem de dois golos. O post é sobre a sua construção, no entanto, começo por abordar a estratégia defensiva do PSG. Blanc baixou bastante a linha defensiva com risco zero no controlo da profundidade. Três médios-centro também baixos a tentar controlar o corredor central e Cavani junto ao duplo pivô contrário. Destaque para o facto dos três jogadores do meio-campo entrarem com alguma frequência em perseguição ao adversário mais próximo, o que juntamente com a sua linha defensiva baixa e a profundidade que os homens sem bola do Chelsea tendiam a conferir para o espaço entre linhas, fez com que ficassem em posições baixas.

Do lado do Chelsea constantes mudanças de corredor. Nota a mobilidade e na zona do duplo pivô (de frente para o bloco adversário), nomeadamente para o facto de William constantemente aparecer  nessa zona. Schurrle e Óscar também apareceram mas já em fases  adiantadas dos lances, após a bola rodar da direita para a esquerda. Os movimentos do brasileiro, fizeram com que David Luiz e Lampard (mais frequente) se adiantassem com frequência para o espaço entre linhas ainda que não conseguissem receber bola. Esta foi talvez uma das maiores dificuldades do Chelsea, a equipa esteve pouco tempo (e poucas vezes) no interior do bloco do PSG, nomeadamente entre linhas. Quando não recuavam Schurrle  e Óscar estavam nesse espaço mas os jogadores do Chelsea distantes entre si e adiantados, conseguiam arrastar a linha média francesa para zonas recuadas, isto permitiu a centrais e a quem estava fora do bloco na zona central (maioritariamente David Luiz) algum espaço para conduzir bola. Aliás, quando o alemão ou o criativo brasileiro recuaram após a equipa ter bola durante algum tempo foi quando o Chelsea conseguiu ganhar metros e chegar ao último terço contrário. Não obstante, foi notória a dificuldade londrina em criar dúvida à linha média contrária, nomeadamente através de movimentos dos seus jogadores contrários à circulação de bola

Chamada de atenção para os movimentos sem bola do duplo pivô londrino. Quando bola no corredor lateral aproximavam primeiro, davam profundidade depois arrastando adversário com centrais a receberem bola com espaço para mudar de corredor. No meio, tentavam atrair marcação, após fazerem passe adiantavam-se mas como foi escrito acima tinham dificuldade em receber entre linhas, acabando quase sempre por voltar a recuar

Nota final para os laterais ingleses. É verdade que estiveram quase sempre adiantados, mas talvez seja um aspecto a rever o seu timming de entrada no último terço,  quando há espaço livre e são a única referência à largura. Nomeadamente na parte final da 1ª parte quando Schurrle e Óscar recua


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Chelsea vs PSG - Jogo Directo



No final da partida Mourinho disse que o Chelsea na parte final optou por jogar directo entre outros motivos porque "o PSG não está habituado a esse tipo de jogo".

Efectivamente, quando o Chelsea passou a jogar longo acabou por causar dificuldades aos franceses que nem sempre mostraram estar preparados para este tipo de abordagem. Desde logo, a incapacidade do PSG em pressionar centrais e pivô do Chelsea, na primeira fase construção, ainda que fosse garantindo alguma presença numérica permitindo que o passe longo fosse realizado nas melhores condições (mérito também para os "blues" que souberam tirar partido da mobilidade que apresentam nesse momento para libertar o portador da bola da pressão). Por outro lado, o posicionamento da linha defensiva. À excepção da fase final do jogo, muito larga distância entre os seus elementos e bastante recuada, permitiu ao adversário ganhar constantemente as segundas bolas.

O Chelsea mostrou-se preparado para este tipo de jogo, tendo Demba Ba como referência maior. Com os jogadores da frente a conferirem bastante profundidade, não só foram geralmente mais fortes nas 2ªs bolas, como proporcionaram ao portador da bola menor pressão.

Por fim a estratégia de Blanc espelhada no lance do golo decisivo, onde existiram 3 lançamentos longos para a área num curto espaço de tempo. O PSG defendia com 3 homens mais adiantados (Cabaye à direita, Pastore no meio e Cavani fechava à esquerda) com Marquinhos e Motta à frente da defesa. Os 3 da frente encontravam-se mais adiantados que a restante equipa. Pastore muito passivo e com maior postura  de médio ofensivo que de avançado, permitiu aos centrais os lançamentos longos e Cavani quando teve de fechar ao meio viu-se fixado pelo posicionamento à largura de Ivanovic. Marquinhos e Motta negligenciaram o espaço à frente da defsa. Pese embora, o bom alinhamento da linha defensiva, o PSG não conseguiu impedir a "asfixia" final que resultou no golo

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Borussia Dortmund - Pressão lateral



Quase como forma de antevisão daquilo que poderá ser o jogo de logo à noite entre Real Madrid e Borussia Dortmund trago neste video alguns exemplos como os alemães pressionam nos corredores laterais.

O Borussia Dortmund no derby contra o Schalke deu bastante ênfase à pressão nos corredores laterais. O lateral saia sempre na pressão ao extremo na tentativa de não o deixar enquadrar com a baliza adversária. Extremos recuavam ficando próximos dos laterais, e muito importante a acção do duplo pivô que basculava bastante criando superioridade numérica, apesar de nem sempre assegurarem que impediam a mudança de corredor da equipa adversária. A linha defensiva acompanhava, regra geral alta para não existir muito espaço entre central e lateral, com lateral do lado da bola também basculado. A estratégia teve sucesso também porque o Schalke forçou, talvez de forma pouco prudente, a entrada no corredor pressionado.

Quando perdia a bola, o Dortmund pressionava imediatamente, ainda que com algumas nuances. Dado o possível adiantamento de lateral e/ou extremo que estariam portanto numa posição mais desvantajosa para pressionar, Mkhitaryan basculava rapidamente para condicionar saída de bola adversária. Um dos elementos do duplo-pivô assegurava a presença no espaço nas costas do lateral adiantado equilibrando a equipa.

Veremos o que acontece na eliminatória com o Real Madrid, mas este poderá ser um ponto muito interessante a ter em conta nestes dois jogos, porque os madrilenos fazem da circulação à largura e das constantes mudanças de corredor um dos seus pontos fortes (é talvez o principio base) da sua circulação de bola. Até porque se é verdade que o Dortmund se mostrou forte quando forçou a entrada do Schalke pelo corredor lateral que a equipa queria pressionar, também teve dificuldades quando o adversário contornou essa pressão, ainda que por fora do seu bloco defensivo

sexta-feira, 28 de março de 2014

Real Madrid vs Barcelona - A Circulação Catalã, Transições e Cruzamentos


Certamente haverá aspectos defensivos a rever em ambas as equipas, e possivelmente tal será visível na final da Taça do Rei, mas o jogo de domingo não deixou de ser um óptimo espectáculo onde a qualidade ofensiva de ambas as equipas foi visível.

O Barcelona mais paciente que em alguns jogos esta época reconheceu o timming correcto para explorar o espaço entre linhas, com Messi mais criterioso. Maior presença no último terço em comparação ao jogo aqui analisado frente ao City, com Iniesta e Neymar a irem dentro, com Fabregas e Xavi também a aparecerem no apoio. Do lado madrileno, Di Maria e Modric muito atraídos à bola, nomeadamente quando esta chegava atrasada aos centrais catalães permitiram ao Barcelona jogar constantemente nas suas costas e muito espaço ao meio que o posicionamento de Ronaldo e Bale à largura não ajudou a corrigir. Nota para o facto de o 2º e 4º golo catalão surgirem após aproveitamento de espaço interior no último terço, com um ponto em comum. O lateral acompanhou o extremo para o meio sem que a restante equipa ajustasse (uma solução seria o extremo baixar para junto da linha defensiva como fez Milner em Nou Camp).

Os catalães quando recuperavam a bola em alguns momentos do jogo tiveram de contornar a pressão alta do Real Madrid que não baixava o seu meio-campo. Foi conseguindo procurando apoios verticais entre linhas, nas costas dos médios adversários, situação que criou alguns problemas aos madrilenos, com dificuldades em definir o momento de sair na pressão ou baixar para juntar linhas.

Finalmente a circulação à largura do Real Madrid. Era previsível as dificuldades que o Barça teria em controlar este aspecto, até porque este é um problema que já não é de agora, nem sequer desta época, nomeadamente quando a equipa de Ancelotti chegasse ao último terço e foi isso que acabou por acontecer. Ora por um posicionamento muito discutível, ora por alguma displicência a verdade é que o Barcelona concedeu assim algumas oportunidades e sofreu dois golos desta forma. Realce para o facto de Busquets não ser um apoio forte nem à linha defensiva, nem aos laterais (que se viram frequentemente em situações desvantajosas) situações que tiveram como consequência o mau controlo do espaço entre central e lateral, bem aproveitado pelo Real.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Barcelona vs Manchester City - Linha Defensiva Exposta


Uma das imagens de marca das equipas de Pellegrini é a capacidade de defender com poucos  jogadores nomeadamente com a linha defensiva baixa. Certamente não serão muitas as equipas que tantas vezes expostas entre linhas se poderão gabar de ter apenas sofrido dois golos em Camp Nou, sendo um deles já nos descontos e com a equipa reduzia a 10 jogadores.

Sendo certo que o meio-campo do City foi ultrapassado com bastante facilidade, também é verdade que a equipa mostrou estar preparada para esse momento. A estratégia passou sempre por cortar profundidade, impedindo bolas nas suas costas e o consequente acompanhamento de catalães que procuravam desmarcações em profundidade, mesmo que isso resultasse numa linha defensiva desalinhada. Sempre que um jogador do Barcelona (quase sempre Messi) recebia bola entre linhas, e com muito espaço entre sectores da equipa inglesa, o central do lado da bola adiantava-se para diminuir espaço e procurar temporizar a condução do argentino. Com os laterais muito por dentro, Milner, ala esquerdo recuado mas aberto, permitia a Kolarov, lateral esquerdo, fechar o corredor central. A prioridade da última linha do Manchester City foi sempre o corredor central.

Na 2ª parte, o Manchester City teve mais dificuldades em controlar o jogo entre linhas do Barcelona principalmente porque este foi mais competente. Não só o Barça foi mais paciente na circulação chegando com mais gente ao último terço inglês, como Neymar passou para a direita dando largura ao ataque e estando mais próximo de Messi, o que dava ao argentino uma nova solução de passe inexistente nos primeiros 45 minutos.

Nota final para o Barça. O Filipe no Jogo Directo já chamou a atenção para a falta de soluções colectivas catalãs no último terço adversário. É assim frequentemente em futebol. Por muita qualidade que uma equipa tenha, no caso o City, num determinado aspecto do jogo, está sempre dependente da resposta dada pelo adversário. O Filipe também refere que existe uma "excessiva focalização em Messi". Sendo verdade, também me parece que o argentino optou demasiadas vezes pela condução de bola, indo no "engodo" do espaço livre, quando o mais prudente seria temporizar e esperar o apoio de colegas. Algo que seria absolutamente normal no Barcelona das épocas anteriores

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Bayern e Barcelona - Construção Central


Certamente existem muitos pontos que merecem análise nos jogos da Liga dos Campeões que ocorreram esta semana. Assim será sempre que equipas de topo europeu se defrontam.

Não obstante, uma das questões que chamou a atenção, e que está longe de ser nova, é a mobilidade que os jogadores do meio-campo de Bayern e Barcelona apresentam, nomeadamente em fases precoces da construção. Apesar das demais diferenças há um ponto em comum que merece análise: a grande presença de jogadores no corredor central de frente para a linha média adversária, seja no caso do Bayern uma sub-estrutura mais fixa: Martinez-Kroos-Alcântara, ou do Barcelona onde a Busquets e Xavi, se juntavam alternadamente, Fabregas ou Iniesta. Nota ainda para uma diferença: os três jogadores do Barcelona tendiam para jogar mais próximos entre si que os alemães, que garantiam alguma largura.

Não se pense que esta "sub-estrutura" era fixa, e que os seus elementos não apareciam entre linhas. Pelo contrário. As penetrações sem bola para esse espaço foram decisivas para o sucesso dos ataques. À atracção normal que a presença de jogadores de meio-campo em zonas tão recuadas provocava no adversário, Bayern e Barça souberam fugir da pressão com a inserção constante entre linhas de um (ou por vezes mais) destes três jogadores. Mais uma vez realçar a importância dos timmings de entrada entre linhas e da diferença entre "estar e aparecer" nessa zona.

Ainda que existam semelhanças as diferenças são também evidentes. Como é referido no Jogo Directo o Bayern procurou garantir presença entre linhas através dos extremos que andaram por zonas muito centrais. O Barcelona, também pelo constante recuo de Messi que por vezes ficava próximo do trio acima referido, e Iniesta que abandonava a esquerda para procurar o corredor central, não garantia muita presença no último terço para responder às entradas de bola (facto também observado no Jogo Directo), solicitou constantemente os laterais que apareciam à profundidade. Sendo verdade que tiveram algum sucesso neste movimento porque com tantos jogadores ao meio, a linha média do City, ainda para mais com menos um jogador, foi forçada a compactar no corredor central